O fenómeno religioso é um facto em Angola. A proliferação de igrejas continua a preocupar as autoridades. Por isso, em entrevista ao jornal OPAÍS, a professora universitária e investigadora do campo da sociologia reiterou, entre outros assuntos, que, para se ultrapassar o fanatismo, é importante apostar seriamente na educação. Fátima Viegas realçou que o Estado sempre foi laico. O papel das igrejas idóneas no plano espiritual e social, apesar de algumas assimetrias, ainda assim tem sido relevante na vida dos angolanos. Vale lembrar que Fátima Viegas lançou recentemente o livro “Relações entre o Estado e as Igrejas em Angola 1975-2025” para homenagear instituições cristãs e não cristãs que contribuíram para o desenvolvimento do país
O filósofo Karl Marx disse que “a religião é o ópio do povo”, o que pretendia dizer o alemão com essa frase?
Estamos a falar do fenómeno religioso e pegou nesta célebre frase de Karl Marx, o pressuposto da sua doutrina . Ele adoptou a doutrina marxista-leninista… e eles encaravam que a religião era o ópio do povo. Significa que as pessoas ficavam alienadas. E em relação à religião, não pensavam na evolução da sociedade. E então, por sinal, nós, após a independência, adoptamos essa ideologia marxista-leninista. Isso, não sei se vocês recordam, logo nos primeiros cinco anos, de 75 até 80, a religião foi afastada. Houve, em 1977, se a memória não me falha, o Presidente António Agostinho Neto, num comício, que disse “quem é católico, continua católico. Quem é protestante, continua protestante. Eu, como não sou católico, nem protestante, sou militante”, e isso causou, assim, uma certa preocupação aos cristãos.
Foi intolerância?
Então, foi algo que eu caracterizo, enquanto socióloga, como um momento de intolerância, um momento, digamos, de ruptura entre o partido, entre a ideologia do MPLA e a própria sociedade. Claro que esta questão depois foi alterando. Também como a vida é uma constante inovação… E as mudanças ideológicas e tecnológicas, mesmo a nível internacional, repercutiram-se também no nosso país. O partido no poder encara a religião já numa outra perspectiva.
Em que período?
Entre 1975 e 1980, porque o camarada Presidente Agostinho Neto faz esse pronunciamento de que a religião é o ópio do povo em 77, inclusivamente, disse, naquela altura, que “daqui a 50 anos, as igrejas iam desaparecer”. Nos anos 80, sai o primeiro Decreto 19/80, em que orienta as igrejas e organizações religiosas a serem registadas no Ministério da Justiça.
Houve flexibilização?
Essa foi a primeira tentativa, digamos assim, de diálogo. Então, as igrejas e organizações religio- sas vão ao Ministério da Justiça registar-se. Em 1987, sete anos depois, o Estado reconhece as doze primeiras igrejas, entre elas a Igreja Católica. Estávamos ainda nesse período de intolerância, mas que aos poucos foi mudando. Mudou- se com esta questão de se registar as igrejas e reconhecer as doze primeiras; e entramos numa outra fase, que eu chamo a fase de tolerância e de confiança.
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