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Ex-comandante de Belas condenado a 26 anos de prisão por triplo homicídio

Romão Brandão por Romão Brandão
9 de Agosto, 2024 - Actualizado a 11 de Agosto, 2024
Em Destaque

O Tribunal de Comarca de Belas, em Luanda, condenou, ontem, o ex-comandante da Polícia Nacional neste município, Evandro Paulo Aragão, pelo seu envolvimento na morte de dois jovens irmãos e um 3.º sub-chefe do seu comando que ameaçou denunciá-lo

O ex-comandante da polícia Nacional no Belas, Evandro Aragão, e os agentes desta corporação, Paulo Gonga, Francisco Thicola, João Tchitote, Vladimir Kiesse e Luís Catete, foram condenados pelo Tribunal de Comarca de Belas, ontem, no final da tarde, após a resposta de um total de 99 quesitos que engrossaram o processo.

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Evandro Aragão, o ex-comandante, único réu que se apresentou sem as vestes dos serviços prisionais, foi condenado a 26 anos de prisão, e ao pagamento de 300 mil kwanzas de taxa de justiça e três milhões de kwanzas de indeminização à família das vítimas.

Também a 26 anos de prisão foi condenado o co-arguido Luís Catete que, à data dos factos, era comandante da esquadra de Cabolombo, bem como a 200 mil kwanzas de taxa de justiça e três milhões de kwanzas de indeminização à família das vítimas, por ter sido este quem liderou a equipa de execução dos irmãos e ter participado da morte do 3.º sub-chefe Martinho Tchombe.

Depois de Aragão e Catete, o mais penalizado está Vladimir Kiesse, o mensageiro das ordens do comandante e acusado de ter disparado contra o colega Martinho, que levou 16 anos de prisão, 100 mil de taxa e dois milhões de indeminização.

Os demais arguidos, João Tchitote, Francisco Thicola e Paulo Gonga, foram condenados a dois anos e seis meses, respectivamente. Sem se dar conta, Evandro Paulo Aragão, então comandante municipal de Belas, começou a ver sua vida a inclinar-se no “caminho da perdição”, quando tentou um diálogo com dois irmãos, Esaú Simões Manuel e Guilherme Simões da Conceição (vítimas nos autos), que estavam a desfalecer num carro de patrulha do seu Comando. Os jovens estavam sob custódia após sobreviverem a um linchamento da população.

A morte dos irmãos Simões

Rezam os factos que Natália Maria Lopes Simões, residente em Londres, mãe das vítimas, em Fevereiro de 2023, por via telefone, solicitou aos filhos que se deslocassem à sua residência em Luanda, no município de Belas, na Zona Verde II, a fim de efectuarem uma limpeza à mesma. Estes, em companhia da jovem Tânia Francisco (companheira de Guilherme), fizeram a tal limpeza.

Os três, depois de feita a limpeza, dirigiram-se num bar próximo, a fim de consumirem algumas cervejas. Enquanto bebiam, surgiram no local dois jovens não identificados que acusaram Esaú e Guilherme de terem praticado um assalto horas antes nas imediações.

A situação gerou uma contenda, ao ponto de se envolverem outras pessoas, que acabaram por amarrar e agredir fisicamente os dois irmãos. Na sequência da agressão, a polícia foi chamada no local, no bairro Parapeito Esqueleto, e no carro patrulha estavam o arguido João Tchitote, o 3.º subchefe Martinho Tchombe, os agentes Paulo Gonga e Francisco Tchicola.

Encontraram os jovens amarrados e com uma multidão em volta, e Guilherme com um ferimento grave na cabeça. Foi-lhes entregue uma arma de fogo do tipo Macarov que, segundo a população, era pertença dos dois irmãos.

Quando a patrulha estava prestes a sair do local, os agentes receberam a ligação do co-arguido Vladimir Kiesse, orientando que o aguardassem no local. Tão logo este chegou, recebeu da mão do infeliz Martinho Tchombe a suposta pistola dos detidos.

Sob a orientação de Vladimir Kiesse a caravana seguiu ao encontro do comandante Evandro Aragão, com os irmãos ainda em vida. No local, para além do comandante municipal, estava o co-arguido Luís Catete (comandante da esquadra do Cabolombo), e foi nesta altura que Evandro Aragão apagou o cigarro que fumava no corpo de um dos irmãos.

Apesar de estarem a desfalecer, os irmãos não foram levados ao hospital, tendo Vladimir Kiesse se dirigido ao carro de patrulheiro e orientado que os agentes o seguissem numa missão ordenada pelo comandante Aragão, e que a mesma seria chefiada por Luís Catete.

A missão era dar um fim aos irmãos, por isso, num cemitério desactivado na zona, já no período nocturno, Luís Catete arrastou uma das vítimas, pisou-a na sua cabeça, tendo ficado inclusive em cima desta.

Não tendo perdido a vida, os co-arguidos Paulo Ngonga e Francisco Tchicola ajudaram a agredir a vítima. Enquanto isso, sob orientação de Catete, Martinho Tchombe arremessou um bloco de cimento noutra vítima.

A discordância que fez nascer a morte do 3.º sub-chefe

Depois de mortos os dois irmãos, Luís Catete orientou os colegas que abandonassem o local, tendo este discordado, sob a alegação de que tinha deixado, no local em que encontram as vítimas, as suas identidades e a missão assumida era de levarem-nas ao hospital.

Pelo que sugeriram que os cadáveres fossem levados ao Hospital Geral de Luanda. Catete aceitou, mas durante o percurso, ainda no bairro Parapeito Esqueleto, num pequeno matagal, num tom de ordem e pouco amigável, orientou aos colegas que jogassem os corpos fora, ali mesmo.

Foi obedecido, embora os subalternos não concordassem. Em Abril de 2023, Martinho Tchombe e Paulo Gonga foram chamados a prestarem declarações à Polícia Judiciária Militar sobre os factos e, apercebendo-se das declarações comprometedoras contra Evandro Aragão, este passou a persuadi-los para que assumissem a culpa e depois faria de tudo para tirálos da cadeia. Martinho mostrou resistência e fez o contrário.

Luís Catete e Vladimir Kiesse passaram a monitorar a casa de Martinho, até que no dia 3 de Agosto de 2023 foi alvejado com diversos disparos de arma de fogo, quando saía da esquadra do Kanhanga Jacaré, em plena via pública, na presença do seu sobrinho.

O sobrinho identificou Vladimir como autor dos disparos e Catete como o condutor da viatura que transportava este. Paulo Gonga, por temer a morte, uma vez que seria o próximo alvo de Aragão, foi-se queixar ao Comandante Provincial da Polícia Nacional, e contou toda a verdade, tendo inclusive preferido ficar no Comando Provincial que regressar em casa. Dias depois, seguiram o mesmo exemplo João Tchitote e Francisco Tchicola.

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