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Muzeri Kizenza é o “novo talento” com a obra literária “Ausentes”

Jornal OPaíspor Jornal OPaís
26 de Janeiro, 2026
Em Cultura, Em Cartaz

A obra “Ausentes”, da autoria de Muzeri Kizenza, que marca a sua estreia na literatura angolana, foi consagrada vencedora da 3.ª edição do Prémio Literário Fundação Gianni Gaspar Martins (GGMF) 2026, cujo acto de premiação teve lugar na União dos Escritores Angolanos (UEA), na passada sexta-feira, 23

Apremiação contou com a participação de Gianni Martins, presidente do Prémio Literário GGMF, escritores, críticos literários, docentes e membros da sociedade em geral.

Numa sala cheia, com mais de 40 pessoas, Muzeri Kizenza, jovem de 26 anos, magro, negro, de olhos pretos e altura média, visivelmente emocionado, recebeu o prémio de um milhão de Kz (1.000.000,00), como símbolo da sua participação na terceira edição do prémio. Depois de receber o prémio, o jovem autografou o livro vencedor para os seus novos leitores. Foi neste momento que a repórter o abordou.

Muzeri, meio tímido, como quem falava à imprensa pela primeira vez, afirmou sentir-se feliz e satisfeito por ter sido agraciado com o prémio, e sublinhou que ter uma entidade a acreditar na relevância do seu livro reforçava a confiança no futuro literário da recente obra. Muito antes de ser apresentado ao júri, “Ausentes” já existia como conto, nascido há alguns anos, facto que facilitou o processo de produção.

“A fase mais desafiante foi estruturar a narrativa e seleccionar as histórias que melhor se enquadravam no projecto literário que desejava apresentar”, lembrou, com um sorriso nos olhos e orgulhoso pelo resultado alcançado.

Muzeri, que não recorda ao certo como começou o gosto pela arte, iniciou o percurso na escrita através da banda desenhada. Antes de desenhar, elaborava roteiros e percebeu que os amigos se interessavam mais pelos textos do que pelas ilustrações. A partir daí, decidiu focar-se na narrativa verbal, desenvolvendo o gosto pela escrita de contos.

Sobre as expectativas após conquistar o prémio, disse acreditar no trabalho que realizou, e destacou que os resultados serviriam para impulsionar alguns projectos pessoais, todos desenvolvidos na província de Luanda. “Estou muito grato pelo valor que recebi, pois pretendo dar vida aos projectos que anteriormente não tinham continuidade, mas com este prémio poderão ser executados”, reforçou.

Novela “O Nome do Rio” distinguida como Prémio Revelação

Para além do conto “Ausentes”, o Prémio Revelação foi atribuído à novela “O Nome do Rio”, de Kenny Raphael, inserida nas comemorações dos 50 anos da Dipanda. Kenny Raphael é o heterónimo de Wilson Elias, natural do município do Lubango, província da Huíla. Admirado com a arquitectura e movimentação da capital, o jovem escritor descreveu a conquista como “uma das melhores sensações” da sua vida, e considerou que, sendo jovem, o prémio representava um grande incentivo para continuar a produzir e motivar outros jovens a seguir o mesmo caminho.

Interessado pela literatura desde a infância, quando se fascinava pelos livros escolares de educação musical, não pela melodia, mas pelos textos, Kenny gostava das aulas de Língua Portuguesa e foi incentivado por professores ao longo da sua formação, incluindo um docente universitário que o apresentou ao universo literário de Mia Couto. A partir daí, passou a consumir literatura latino-americana, e identificou no escritor moçambicano e em outros autores as suas principais referências.

Durante a entrevista, Kenny Raphael confessou que hesitou em inscrever-se no concurso, devido ao peso literário dos escritores de Luanda e à dinâmica cultural da capital, marcada por clubes de leitura e oficinas literárias. “No Lubango, os espaços existentes são menos activos. Em Luanda, há mais oportunidades e projectos literários de capacitação. Já participei esporadicamente no clube de leitura da Mediateca local.

No entanto, mesmo estando fora de Luanda, decidi enfrentar o desafio, e aqui estou”, afirmou, com firmeza e esperança de vencer em primeiro lugar nos próximos concursos. A novela vencedora, inserida na programação comemorativa dos 50 anos da independência, foi escrita entre interrupções e hesitações.

Kenny Rafael confessou que chegou a desistir de concluir a obra por sentir que alguns elementos narrativos, sobretudo ligados a temas como loucura, família e herança, ainda estavam pouco amadurecidos. Explicou que retomou o projecto após o falecimento de um tio, período em que vivia o luto, incorporando reflexões pessoais sobre silêncio e perda. A fase final de escrita foi intensa, acompanhada de trocas de impressões com amigos que contribuíram com críticas e sugestões.

Mais de 40 inscritos

O coordenador do concurso, Édson Nuno, disse que nesta edição foram inscritas quarenta obras na categoria de prosa, tendo o júri reduzido o número para dez finalistas antes de anunciar o vencedor. Segundo Édson, “Ausentes” venceu por apresentar um conjunto de contos em que o autor alia poeticidade, economia linguística, humor subtil, crítica literária, inventividade narrativa e uma capacidade filosófica rara de interrogar a realidade angolana contemporânea. “Para além do conto ‘Ausentes’ e da novela ‘O Nome do Rio’, outras obras estiveram próximas da vitória, embora eu não recorde os títulos”, acrescentou.

Maior participação de mulheres

Sobre a diferença entre esta edição e as anteriores, Édson afirmou que houve maior participação feminina, embora tenha reconhecido a escassez de mulheres com presença destacada na literatura angolana. Acrescentando que a divulgação permanece uma dificuldade central na organização do prémio. “Precisamos de mais apoio da comunicação social para que autores de outras províncias, e não apenas de Luanda, sintam-se motivados a participar”, apelou.

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