Desde a morte do meu malogrado amigo ‘Ndaia We’ que me afastei das estórias e histórias do programa ‘Estórias de ouvir contar’, na Rádio Luanda, às manhãs de Sábado, que fazia em parelha com o Kota Cassule e o neto deste. Era inevitável.
Não por serem contadas por pessoas próximas, mas, sobretudo, por causa do conteúdo e da novidade que muitas delas carregavam. Embora dissessem que muitas delas ocorriam no interior, a maioria das quais nas comunidades do território que hoje configura a nova província de Icolo e Bengo, tive sempre a noção de que eram criações dos próprios por conta das vivências que tiveram nas referidas localidades.
Se visse algumas das situações reais confirmadas esta semana pelos órgãos de comunicação social numa visita feita por quadros do Governo de Icolo e Bengo, teria, igualmente, dificuldades em perceber se estaríamos diante de factos inventados, principalmente num país como o nosso, em que há ainda uma carência gritante em termos de infra-estruturas.
Tanto para a habitação como outras para albergar serviços de saúde, educação, policiais e até administrativos. Numa das páginas das redes sociais do próprio Governo Provincial de Icolo e Bengo, é possível ler-se que “O Governo iniciou, no Icolo e Bengo, uma jornada de trabalho para identificar prédios concluí dos e sem utilização, tapumes não autorizados, infra-estruturas públicas ociosas e obras que precisam de ser aceleradas.
Na verdade, trata-se de uma iniciativa orientada por uma comissão multissectorial que reúne responsáveis dos sectores das Autarquias Locais, Obras Públicas, Interior e Ordenamento do Território e integra uma acção de âmbito nacional que visa regularizar situações pendentes e dar utilidade ao património existente”.
As primeiras intervenções do referido grupo de trabalho possibilitaram a descoberta, por exemplo, no Sequele, de edifícios concluídos há vários anos, mas que permanecem fechados e sem utilização.
Na Funda, há um Centro de Distribuição de Água que tem capacidade para servir às comunidades próximas, mas carece de redes que permitam levar essa água às famílias. Sobre obras inacabadas, paralisadas por falta de verbas, sem grandes esforços, é possível divisar em muitas partes do país. E muitas das quais saídas de épocas em que o país vivia uma fase de bonanças.
Aliás, a apresentação de algumas delas, que serviriam grandemente ao país, tem sido utilizada pela oposição para tentar justificar alguma apatia governamental. Agora, saber que existem infra-estruturas construídas com dinheiro público sem quaisquer utilizações chega a ser extremamente preocupante.
O facto é que existem mesmo – e não foi preciso muito esforço para se saber que, aqui ao lado, às portas de Luanda, onde está o Governo Central, estão até edifícios acabados sem qualquer utilidade.
Para um país com enormes problemas de infra-estruturas, uma descoberta do género é, sim, aterra dora. Não tem o mesmo peso que uma mala com um milhão de dólares que se deixou num avião e até hoje se desconhece o proprietário.
Os prédios podem ser vistos diariamente, e por muitos. Sabe-se quem os construiu, os fins e os contratos. Caso contrário, somos obrigados a concluir que alguém se quis apropriar deles.





