Enquanto as universidades angolanas entregam, neste ano, os certificados a mais uma geração, o país precisa de responder a uma pergunta incómoda: estamos a formar jovens para empregos que já não existem? Nestas semanas, em auditórios de Luanda e de outras províncias, milhares de jovens angolanos sobem a um palco, recebem um canudo e ouvem os aplausos da família. É um momento de orgulho genuíno — anos de estudos, sacrifício e esperança concentrados num diploma. Mas, por trás de cada aplauso, há uma pergunta que o país ainda não respondeu com honestidade: esse papel vai mesmo abrir uma porta? A resposta, hoje, é cada vez menos óbvia. O mundo está a mudar mais depressa do que os currículos universitários, e a inteligência artificial está a acelerar essa distância entre o que se ensina e o que o mercado precisa.
O diploma já não é garantia
Chama-se “sobrequalificação” ao fenómeno de um trabalhador ter mais formação do que aquela que a sua função exige. Não é sinal de que estudar deixou de valer a pena — é sinal de que a economia não está a criar empregos qualificados suficientes para absorver quem se forma. Um relatório do Banco Mundial mostrou que, em Marrocos, 43% dos diplomados do ensino superior, entre 25 e 34 anos, exercem uma função cujo nível de qualificação não corresponde à sua formação — e essa taxa sobe para 70% entre os diplomados do ensino técnico-profissional. Angola não está isenta desse risco: dados do INE (Instituto Nacional de Estatística) apontam uma taxa de desemprego de 21,3% no primeiro trimestre de 2026, com o desemprego entre os jovens de 15 a 24 anos a atingir 40,7% — quase o dobro da média nacional.
São milhares de jovens licenciados sem trabalho, todos os anos, à procura de uma oportunidade que corresponda ao que estudaram. Sem emprego formal disponível, muitos procuram alternativas na informalidade apenas para sobreviver — não por falta de vontade ou de mérito, mas porque o mercado simplesmente não tem vagas para eles. Ninguém deve sentir vergonha nisso: a informalidade sustenta milhões de famílias angolanas.
O problema não é recorrer a ela; o problema é quando anos de estudo, sacrifício e propinas terminam ali por falta de alternativa, e não por escolha! E este não é um drama exclusivamente angolano: o mesmo fenómeno já foi documentado na China, onde uma vaga recorde de diplomados enfrenta um mercado sem lugares suficientes ao seu nível, obrigando muitos a aceitar trabalhos informais ou muito abaixo da sua formação. O mesmo padrão repete-se noutros países em desenvolvimen- to onde as universidades cresceram mais depressa do que a economia formal.
A lição que a China está a dar ao mundo
Poucos países mostram tão cla- ramente a urgência de mudar como a China. Entre 2021 e 2025, as universidades chinesas sus- penderam ou eliminaram cerca de 12.200 cursos de licenciatura considerados desatualizados ou saturados, e criaram cerca de 10.200 novos programas — mais de 30% da oferta foi ajustada. Saíram de cena cursos de artes, humanidades e gestão com pouca ligação ao mercado; entraram cursos de inteligência artificial, robótica, semicondutores, energia, ciência de dados e agricultura de precisão. A mensagem é clara: nenhum currículo pode ficar parado enquanto a economia se transforma.
O contexto de África
A África precisa de sair da “narrativa oca” de ser apenas o “continente do futuro” e posicionar- se como um protagonista, com ferramentas necessárias para fazer face aos novos tempos. A União Africana (UA), enquanto principal organização continental, deve estar na linha da frente neste sentido, através do seu ór- gão consultivo da sociedade civil, o ECOSOCC (Conselho Económico, Social e Cultura da UA), estabelecido como uma interface de desenvolvimento de políticas que aproveita a experiência da sociedade civil para o trabalho de vários departamentos da Comissão da União Africana e da UA em geral. Se a geração passada de líderes africanos nos legou as independências, a actual geração de líderes tem a responsabilidade de protagonizar o desenvolvimento, com sentido de Estado e patriótico. Isto implica fazer e criar condições de investimento na juventude africana, com competências alinhadas às exigências profis- sionais dos novos tempos: da era digital e da inteligência artificial.
Angola não pode esperar
A boa notícia é que Angola não está sozinha neste desafio — e não precisa de inventar tudo a partir do zero. O Quénia, por exemplo, aposta na economia digital e no trabalho remoto. Angola já tem universidades e institutos a in- troduzir ciência de dados e inteligência artificial, mas o esforço continua disperso e sem ligação forte às empresas. Isto não significa abandonar a contabilidade, o direito, o jornalismo ou as ciências sociais. Sig- nifica formar contabilistas que dominam automatização e auditoria digital, jornalistas capazes de verificar dados e produzir conteúdo multimédia, gestores que sabem analisar mercados internacionais. O diploma continua a valer. O que deixou de valer é o diploma sozinho, sem competência digital, sem língua estrangeira e sem experiência prática.
A cadeira que todos tiveram e quase ninguém aprendeu
Todos os estudantes angolanos têm inglês ou francês no currículo. E, no entanto, quantos conseguem hoje manter uma reunião, escrever um e-mail profissional ou fechar um negócio nessa língua? Quantos falam com fluência real, e não apenas decoram ver- bos para o exame? Poucos. E é aí que Angola perde terreno antes mesmo de a corrida começar. Em muitos outros países, quem sai da universidade sai bilíngue — capaz de trabalhar, negociar e competir em duas línguas.
Como é que um jovem angolano vai disputar uma vaga remota, uma bolsa internacional ou uma parceria com uma empresa estran- geira se ainda não domina a língua estrangeira que devia ser a sua ponte para o mundo? Não é falta de currículo. É falta de exigência, de prática real e de ligação entre a sala de aula e a vida profissional. Enquanto isso não mudar, Angola vai continuar a formar licenciados com canudo, mas sem a ferramenta mais simples e mais poderosa para competir internacionalmente.
Um recado aos que se formam agora
Aos milhares de jovens que recebem hoje o seu certificado, fica um recado que é, ao mesmo tempo, de alerta e de esperança: o vosso diploma é uma base, não um destino. O mundo vai continuar a exigir que aprendam ferramentas novas, que dominem uma língua estrangeira com nível profissional, que saibam usar a inteligência artificial como aliada e não como ameaça. Quem conseguir isso não estará apenas a competir pelos poucos empregos que existem em Angola — poderá competir por opor- tunidades remotas em qualquer parte do mundo.
O que o país precisa de fazer
A responsabilidade não pode re- cair só sobre os jovens. O Estado, as universidades e as empresas angolanas precisam de agir com a mesma urgência que a China demonstrou. É urgente criar um observatório nacional do mercado de trabalho, actualizar currículos com a participação das empresas, introduzir inteligên- cia artificial e línguas estrangeiras em todos os cursos, reforçar o ensino técnico-profissional e criar estágios remunerados para os recém-formados. Sem isso, corremos o risco real de formar, ano após ano, uma geração de diplomados frustrados e subutilizados.
Conclusão
Hoje, em cada cerimónia de gra- duação em Angola, há motivo ge- nuíno para celebrar. Famílias in- teiras se sacrificaram para chegar até ali, e esse esforço merece ser aplaudido de pé. Mas a celebração não pode adormecer a urgência da reforma, nem servir de desculpa para adiar mais uma vez as per- guntas difíceis. O diploma que estes jovens er- guem no palco não é o fim de uma caminhada — é o início de uma disputa por um lugar num merca- do que ainda não está pronto pa- ra os receber. Essa disputa só vai correr a favor de Angola se o país decidir, a partir de hoje, transformar currículos, exigir línguas es- trangeiras faladas com fluência e não apenas escritas num caderno, e criar as oportunidades que estes jovens já mereceram só por terem chegado até aqui. Caso contrário, continuaremos a aplaudir diplomas todos os anos, enquanto observamos, em silêncio, uma geração inteira de talento a perder-se na informalidade. Angola não pode dar-se a esse luxo.
POR: PINTO CABALO e AFONSO PINA





