Há momentos em que a estatística deixa de ser apenas um exercício técnico e passa a representar um verdadeiro teste à nossa capacidade de interpretar o mundo. A relação económica entre Portugal e Angola vive hoje um desses momentos.
Durante décadas, habituámo nos a olhar para Angola como um dos principais destinos do investimento português em África. Era uma narrativa sustentada pela história comum, pela língua, pelos laços humanos e por uma in tensa relação empresarial construída ao longo de gerações.
Contudo, a realidade económica tem uma característica implacável: não respeita memórias, apenas acompanha a dinâmica dos factos. Os números recentemente divulgados pelo Banco de Portugal e pela AICEP mostram uma in versão histórica.
No final de 2025, o investimento direto angolano em Portugal ascendia a cerca de 4.525,7 milhões de euros, enquanto o investimento direto português em Angola se situava nos 2.410,4 milhões de euros.
Em apenas quatro anos, Angola passou de um investidor relativamente discreto para um dos principais investidores estrangeiros em Portugal, subindo do 14.º para o 9.º lugar entre os países com maior stock de investimento no nosso território.
Em sentido inverso, Portugal desceu do 3.º para o 7.º lugar entre os principais destinos do investi mento português no exterior. Mais expressivo ainda é o saldo líquido desta relação.
Em 2021 Portugal apresentava um saldo favorável superior a 700 milhões de euros. Em 2025 esse diferencial transformou-se num saldo negativo superior a 2,1 mil milhões de euros. Estes números não podem ser ignorados.
Por: PEDRO NOGUEIRA SIMÕES
FILDA 2026





