Há derrotas que emocionam. Há derrotas que dignificam. Há der rotas que fazem o mundo olhar para África com respeito. Mas também há derrotas que, se forem mal interpretadas, podem levar-nos a repetir eternamente a mesma frase: “jogámos bem, mas faltou qualquer coisa”.
O problema é que esse “qualquer coisa” precisa de ser compreendido com mais profundidade. Quando uma selecção africana compete de igual para igual com uma potência mundial, quando obriga o adversário a sofrer, quando mostra talento, coragem, disciplina táctica e capacidade física, não estamos perante um acaso.
Estamos perante a confirmação de algo que o continente já sabe há décadas: África tem talento suficiente para competir com qualquer região do mundo. O grande desafio é transformar esse talento em sistemas cada vez mais consistentes, capazes de converter promessa em resulta do, participação em conquista e emoção em legado.
Essa é a diferença entre comover o mundo e mudar a história. Angola conhece bem esta força. Conhece-a nos bairros, nas escolas, nos clubes, nas províncias, nas equipas nacionais e nas modalidades que tantas vezes deram orgulho ao País.
Conhece a no andebol, no basquetebol, no futebol, no judo, no atletismo, na natação, no boxe e em tantas outras expressões do nosso despor to. Em Angola, como em muitos países africanos, o talento aparece cedo, muitas vezes antes das condições ideais. Surge no campo improvisado, no pavilhão comunitário, na escola, na rua, no clube de bairro e na energia de jovens que aprendem a competir antes mesmo de aprenderem a chamar isso de carreira.
Essa é uma força extraordinária. Mas o talento, por si só, não deve carregar sozinho a responsabilidade de representar uma Nação ou um continente. Precisa de caminho. Precisa de método. Precisa de escola. Precisa de treinadores qualificados, com petições regulares, acompanha mento médico, nutrição, psicologia, dados, ciência, gestão e continuidade. O talento nasce muitas vezes de forma espontânea.
O campeão, porém, nasce quando essa espontaneidade encontra organização. É aqui que a conversa africana precisa de subir de nível. Durante muito tempo, aprendemos a admirar o atleta africano pela sua capacidade de superação. E essa admiração é legítima. A superação faz parte da nossa história. Mas há um risco silencioso quando romantizamos demasiado a dificuldade: podemos transformar a escassez em narrativa e o improviso em método. O desporto moderno não permite isso.
Por: EDGAR LEANDRO








