A educação sempre foi o alicerce silencioso sobre o qual erguemos a dignidade humana. É um processo vital que ganha vida no seio da família e se expande pelas esquinas do mundo.
Somos todos peças indispensáveis desse imenso e complexo quebra-cabeça chamado sociedade. No entanto, para compreender o desenho completo desse mosaico actual, precisamos de mergulhar no cenário que se desenha diante dos nossos olhos. A vida é feita de dualidades: o positivo e o negativo, o regular e o excessivo.
Hoje, testemunha mos um fenómeno de proporções inflamáveis que avassala todas as franjas sociais. O que antes era restrito, tratado com recato e cuidado, hoje escancara-se em praça pública. Nunca se viu tanto dinheiro circular de forma tão volátil, seduzindo até mesmo os mais jovens.
Falo, sem rodeios, da febre dos jogos de azar e das apostas — sejam elas desportivas ou numéricas —, as famosas “Bets” e loterias. a sorte substitui o saber DR Ouve-se o eco de histórias de quem ganhou centenas, milhares, milhões. Nada contra; mui to menos se trata de inveja ou outro sentimento infernal.
Há quem tenha enriquecido, quem tenha feito disso o seu ofício como agente e quem viva do palpite, lucrando com o marketing agressivo das plataformas digitais. Contudo, na mesma esteira da ilusão, surgem aqueles que aproveitam a vulnerabilidade alheia para semear a má-fé, enganando os incautos por esta Benguela e por esta Angola fora. Enquanto isso, nos altares, algumas igrejas erguem a voz em debate, apregoando que “bater ficha” é pecado.
Por trás da suposta boa vontade dos criadores e promotores dessas plataformas, esconde-se uma estratégia predatória. Elas fixam-se onde o fluxo populacional é mais denso, onde a esperança é mais fértil e, tragicamente, onde habitam os alvos mais vulneráveis deste enredo: as nossas crianças. O giz risca o quadro com o som manso da chuva, mas os olhos dos meninos não moram ali.
Eles migraram para as esquinas do acaso, onde o tempo não se me de em sabedoria, mas no estalar frio de uma sorte que quase nunca amanhece. Eu os vi.
Ninguém precisou traduzir o mistério da quelas mãos pequeninas, feitas para colher conchas ou folhear o peso bonito dos livros, apertando moedas com o fervor dos desesperados. Moedas que guardavam o cheiro do pão do recreio ou o troco miúdo da praça, escondi das como um segredo culpado na costura do bolso.
Por: AFONSO TCHALIMBA








