Uma das revelações mais aborrecidas que tive em mãos foi um relatório da Universidade Católica, realizado por investigadores reputados, há alguns anos, sobre o descaminho que se havia dado a largos milhares de milhões de dólares norte-americanos durante o processo de reconstrução do país.
Em outras palavras, a prestigiada universidade, ligada à Igreja Católica, indicava que parte do referido montante caiu em mãos alheias, não tendo beneficiado sequer os angolanos de uma forma mais sólida com estradas, escolas e outras infra-estruturas. Pode até parecer irónico, mas, num dado momento, houve quem tivesse escrito, inclusive, que escolas inteiras e vários quilómetros de estradas haviam desaparecido do mapa.
Ou seja, apesar de constarem de relatórios e em programas como realizados, muitos deles nem sequer acabaram por sair do papel, o que não terá, provavelmente, impossibilitado que se efectivassem os pagamentos a empreiteiros ou entidades que estivessem por detrás de tais firmas. Estes e outros expedientes fizeram com que surgisse um naipe de endinheirados e pseudo-empresários.
Mas, na realidade, muitos só o foram por estar directamente ligados ao pote de mel ou a quem tivesse acesso às chaves que possibilitavam lambuzar-se de uma ou de outra forma. É por isso que, em muitos casos, é comum em alguns países, quando ocorre mudança de partidos políticos ou até mesmo de figuras políticas, existirem aqueles que se mostram, à partida, contrários, incluindo até das coisas boas que possam estar a ser feitas.
A retirada de privilégio acaba por envenenar consciências, provocar rancores e desencadear narrativas, muitas das quais afastadas das verdadeiras razões que, num passado, terão colocado uma no pedestal e outras no chinelo, como se diz hoje na gíria para os que estiveram afastados do pote de mel. Num leque de mais de 50 países no continente africano, Angola ocupa o 11.º lugar em termos de milionários, segundo a Consultora Henley& Partners, 2.250 milionários.
Não há nenhum mal em ser milionário ou até mesmo bilionário, como se acreditava anteriormente existir. Porém, a proveniência dos fundos, em qualquer sociedade, acaba sempre por gerar debates em nome da transparência, quando não se conhecem antecedentes credíveis sobre a sua origem. Em cada etapa da vida do país, esse debate virá sempre à tona.
Porém, o inadmissível é que não se pode tomar todos como desconhecendo que seria a síndrome de Estocolmo, quando se faz dos agressores ou de quem se tenha beneficiado muito mais em detrimento de outros autênticos virtuosos.
Apesar do momento menos bom que se vive, ainda assim é essencial que se consiga, em certos momentos, separar o trigo do joio. Porque há, sim, gente que só atingiu os píncaros por não ter as mesmas dificuldades que muitos angolanos em termos de acesso ao que era suposto ser de todos.







