O Girabola terminou e, quando termina o campeonato, fecha-se um ciclo de emoções, de fins-de semana vividos entre a esperança e a frustração, de viagens intermináveis, de estádios cheios, de bancadas que continuam a resistir apesar das dificuldades.
Acabou a maior festa do desporto nacional, a competição mais longa, mais desgastante e mais apaixonante do futebol angolano. E talvez, pela primeira vez em muitos anos, o sentimento dominante não seja revolta, mas satisfação moderada.
Não porque tudo tenha corrido na perfeição, mas porque finalmente começamos a ver sinais claros de evolução. O Girabola 2025/2026 ficará na memória como um dos campeonatos mais regulares e menos polémicos das últimas décadas.
Durante anos habituámo-nos a conviver com arbitragens desastrosas, decisões administrativas contraditórias, jogos interrompidos por confusões, protestos intermináveis e uma permanente sensação de desorganização. Era como se o futebol angolano estivesse condenado ao caos. Mas desta vez houve diferença.
E por isso é justo reconhecer o trabalho da Federação Angolana de Futebol e também da ANCAF, que surgiu como um novo protagonista nesta edição. Houve maior controlo organizacional, mais serenidade institucional e menos ruído fora das quatro linhas.
Não significa que os problemas desapareceram, mas significa que o futebol angolano começou finalmente a dar sinais de maturidade. O mais interessante é que essa melhoria pode ser analisada por várias perspectivas. Do ponto de vista do adepto, o campeonato tornou-se mais respirável. Houve menos semanas dominadas por escândalos e mais atenção voltada ao jogo jogado.
O adepto voltou a discutir tácticas, resultados e jogadores, em vez de passar dias inteiros a discutir erros administrativos. Na perspectiva dos clubes, percebeu-se alguma evolução na relação institucional com a prova. Ainda existem dificuldades logísticas enormes, atrasos e limitações financeiras, mas o ambiente geral foi menos tóxico do que em temporadas anteriores.
Isso ajuda a dar estabilidade emocional às equipas e credibilidade à competição. Já na perspectiva do futebol angolano enquanto produto, ficou evidente que o Girabola pode, sim, tornar-se mais atractivo. Afinal, o problema nunca foi falta de paixão. Angola respira futebol; o problema sempre foi organização. E, quando há organização, o campeonato ganha outra imagem.
Claro que ainda estamos longe da excelência. Continuamos a precisar de melhores condições nos estádios, maior profissionalização da arbitragem, decisões mais rápidas e equilibradas do Conselho Técnico e de Disciplina da FAF, maior protecção aos jogadores e, sobretudo, prémios financeiros mais dignos para o campeão nacional. Um campeonato competitivo não pode sobreviver apenas da paixão dos adeptos; precisa também de sustentabilidade económica.
Mas, olhando para trás, para aquilo que era a nossa realidade até bem pouco tempo, este Girabola representou um avanço importante. Dentro das quatro linhas, porém, houve uma realidade que voltou a repetir se o domínio absoluto do Petro de Luanda.
O clube tricolor conquistou o penta-campeonato praticamente sem oposição à altura. Em muitos momentos da época, o Petro pareceu jogar noutra dimensão competitiva. Enquanto os adversários oscilavam entre crises técnicas, instabilidade emocional e limitações estruturais, o campeão manteve sempre a mesma identidade: organização, profundidade do plantel, experiência e cultura de vitória.
O mais impressionante no Petro já não é apenas ganhar, é a naturalidade com que ganha. Mas se houve uma equipa que merece aplausos quase tão fortes quanto os do campeão, essa equipa foi o Wiliete de Benguela. O vice-campeonato deixou definitivamente de ser surpresa.
O Wiliete confirmou que o crescimento sustentado é resultado de trabalho sério, visão estratégica e estabilidade. Num futebol angolano onde muitos projectos desaparecem rapidamente, o clube benguelense consolidou-se como exemplo de construção inteligente. Benguela voltou a sonhar alto.
O Wiliete não representa apenas um clube, representa a esperança de descentralização do futebol nacional. Mostra que é possível criar equipas fortes fora de Luanda, competir com os grandes e ganhar respeito nacional. No lado oposto aparecem clubes históricos que continuam à procura da própria identidade. O 1.º de Agosto permanece preso ao “quase”. Quase competitivo, quase regular e quase candidato.
O gigante militar continua distante dos tempos em que intimidava adversários apenas pelo nome. Falta estabilidade, continuidade e, sobretudo, confiança. O adepto rubro-negro já não quer promessas, quer resultados. O Kabuscorp do Palanca é uma daquelas equipas que transcende os resultados.
Pode atravessar fases menos boas, perder protagonismo em determinados momentos, mas continua sempre a carregar uma identidade muito própria no futebol angolano. É um clube com alma competitiva, irreverente e com capacidade para surpreender os chamados “grandes” do nosso campeonato.
Não é por acaso que muitos adeptos ainda olham para o Kabuscorp como um verdadeiro “tomba-gigantes”. Muito dessa identidade está ligada à figura carismática de Bento Kangamba. Independentemente das opiniões que possa gerar, ninguém pode negar a sua paixão pelo futebol e pelo clube.
Kangamba transformou o Kabuscorp numa marca forte dentro do Girabola, investindo em jogadores e, sobretudo, criando uma ligação emocional com os adeptos. Mas nenhuma equipa decepcionou tanto quanto o Sagrada Esperança.
A equipa da Lunda Norte, que recentemente habituou os adeptos a lutar pelos lugares cimeiros e a representar Angola nas competições africanas, viveu uma temporada dramática, chegando a lutar para não descer de divisão. E isso prova algo que o futebol insiste em ensinar repetidamente: saúde financeira não garante estabilidade competitiva. O futebol é muito mais complexo do que orçamento.
O Sagrada Esperança foi talvez o maior exemplo disso nesta temporada. Ainda assim, o saldo final do Girabola é positivo. Porque o campeonato terminou, deixando a esperança de que a FAF continue a melhorar, de que os árbitros evoluam, de que os adeptos regressem aos estádios em maior número. Esperança de que os dirigentes percebam f inalmente que o futebol moderno exige profissionalismo.
O Girabola continua longe da perfeição, mas voltou a aproximar-se daquilo que nunca deveria ter deixado de ser, um campeonato respeitado. E a verdade é que o próximo campeonato já começa a fazer falta.
Por: Luís Caetano






