O ministro da Justiça e dos Direitos Humanos, Marcy Lopes, afirmou esta sexta-feira, em Luanda, que o processo de localização, identificação e entrega dos restos mortais das vítimas dos conflitos políticos está a decorrer de forma estruturada, com base em rigor científico e envolvendo diferentes instituições do Estado.
O governante, que coordena a Comissão para a Implementação do Plano de Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos (CIVICOP), prestou as declarações à imprensa à margem da cerimónia de entrega de nove restos mortais às respectivas famílias. Segundo Marcy Lopes, a iniciativa visa permitir que os familiares possam prestar uma homenagem digna aos seus entes queridos, através da realização de funerais e da devolução dos restos mortais devidamente identificados.
O ministro explicou que o processo inclui a recolha de amostras biológicas junto das famílias e o cruzamento dessas informações com dados obtidos em valas comuns recentemente identificadas, permitindo a confirmação genética das vítimas. Referiu ainda que foi criado um centro de operações que integra o laboratório central de criminalística e equipas dos registos civis, responsáveis pela certificação dos óbitos e emissão dos documentos necessários para a entrega dos restos mortais às famílias.
De acordo com o responsável, o trabalho decorre em todo o território nacional, com maior incidência nas províncias que registaram episódios marcantes relacionados com os conflitos políticos. Marcy Lopes sublinhou que o processo assenta em rigor técnico e científico, com recurso a análises laboratoriais e procedimentos de identificação forense, para garantir a fiabilidade dos resultados.
O ministro considerou, igualmente, que a iniciativa representa um contributo importante para a preservação da memória histórica do país e para a consolidação da reconciliação nacional.
“A história serve como um lembrete. A principal lição a aprender é a importância da união e da definição de objectivos comuns para o progresso da sociedade”, afirmou.
O governante enalteceu também o empenho dos técnicos envolvidos no processo e destacou o apoio prestado às famílias, visando minimizar o sofrimento causado pela incerteza sobre o paradeiro dos seus familiares desaparecidos.
A cerimónia de entrega dos restos mortais decorreu na Centralidade do Kilamba, num ambiente marcado por forte emoção, testemunhos comoventes e apelos à reconciliação nacional. Os nove corpos entregues às famílias fazem parte de um total de 623 restos mortais exumados da vala comum do Cemitério da Mulemba, mais de quatro décadas após o desaparecimento das vítimas.
A iniciativa enquadra-se no processo conduzido pela CIVICOP, que tem como objectivo devolver dignidade às vítimas dos conflitos políticos e proporcionar às famílias um encerramento simbólico e emocional.
Família do cantor David Zé aguarda pela entrega dos seus restos mortais
A família do cantor David Zé (David Gabriel José Ferreira), também vítima de um dos conflitos políticos registados no país, conhecido por 27 de Maio, aguarda com bastante espectativa pela entre dos seus restos mortais para realizar o seu sepultamento.
A entrega de nove restos mortais de vítimas dos conflitos políticos em Angola marcou, esta sexta-feira, em Luanda, mais um passo no processo de reconciliação nacional, num acto carregado de emoção, memória e apelos ao perdão entre os angolanos. Entre os familiares presentes, Moisés Gabriel Ferreira, conhecido pelo nome artístico de Gabi Moy, irmão do cantor David Zé (David Gabriel José Ferreira), afirmou que a entrega dos restos mortais representa não apenas um acto de justiça para as famílias, mas também uma oportunidade de reforço da harmonia nacional.
“É um momento de pesar, mas também o início de uma nova fase de harmonia entre os angolanos”, declarou.
Gabi Moy agradeceu o empenho das entidades envolvidas no processo e considerou que a devolução dos restos mortais permitirá às famílias realizar funerais condignos e encontrar tranquilidade espiritual. Após décadas de espera, afirmou que a esperança começou a renascer quando as famílias foram chamadas para os procedimentos de recolha de dados e identificação genética.
“Esperança é a última a morrer. Foram muitos anos difíceis, mas hoje sentimos que estamos mais próximos de fechar este ciclo”, sublinhou.
A CIVICOP informou que alguns familiares não participaram na cerimónia devido a questões relacionadas com o reagrupamento familiar e o cumprimento de princípios culturais associados às exéquias fúnebres. Parte dos funerais realiza-se este sábado, no Cemitério do Benfica, enquanto outras famílias decidiram efectuar as cerimónias em datas posteriores.









