Enquanto médico em Angola, tenho assistido diariamente a uma realidade silenciosa que cresce nos hospitais e nas próprias famílias: o peso das emoções sobre o corpo humano. Muitos pacientes chegam com hipertensão, gastrites, insónias, dores persistentes ou fadiga extrema, mas os exames revelam algo inquietante — o sofrimento emocional transformado em doença física.
A psicossomática explica precisamente esta ligação entre mente e corpo. O stress contínuo, os traumas, a ansiedade, o luto e as dificuldades económicas acabam por produzir alterações hormonais e neurológicas capazes de enfraquecer o organismo. Em Angola, onde muitas famílias vivem sob forte pressão social e económica, esta realidade torna-se ainda mais evidente. Há mães que adoecem em silêncio pela sobrecarga familiar. Jovens consumidos pela ansiedade do futuro. Pais que escondem depressões atrás de aparentes sinais de força.
O corpo acaba muitas vezes por falar aquilo que a alma não consegue dizer. Autores como Bruce Lipton, Gregg Braden, Joe Dispenza, Norberto Keppe e Claudia Bernhardt de Souza Pacheco, embora com abordagens distintas, convergem numa ideia central: emoções, crenças e conflitos internos influenciam profundamente a biologia humana.
Lipton fala da influência do ambiente emocional sobre a expressão genética; Dispenza da capacidade do cérebro reorganizar padrões emocionais destrutivos; Gregg Braden da ligação entre consciência, emoção e organismo; enquanto Keppe e Pacheco aprofundam os conflitos inconscientes e a for ma como a energética psíquica se manifesta no corpo e nas relações humanas.
Independentemente das correntes científicas ou filosóficas, to dos apontam para a necessidade de uma medicina mais integrada e humana. Tratar apenas o sintoma sem compreender a dor emocional do paciente é com bater a consequência sem tocar verdadeiramente na origem. Talvez o maior desafio da medicina africana contemporânea seja reaprender a escutar o ser humano na sua totalidade.
Afinal, há feridas que não aparecem nas radiografias, mas continuam lentamente a destruir vidas. E talvez seja precisamente por isso que começa também a erguer-se, discretamente, um novo horizonte académico e humano em Angola.
Assim, levantamos já o véu para a futura Universidade Trilógica em Angola, numa visão mais profunda e integrada do próprio ser humano. E confesso que, mesmo após várias décadas de experiência médica, continua a ser precisamente essa dimensão humana da medicina que mais me move e faz avançar todos os dias.
Por: JOSÉ PAULO SANTOS
*Médico








