Havia um cartaz invisível pregado em to das as portas e publicado em redes sociais: “Há vaga acabou”. Não se tratava de um erro gramatical, embora o fosse; tratava-se de um retrato fiel.
A frase, torta na forma, era impecável no conteúdo. Não havia vaga. Ou melhor, havia, mas não para todos, não para qual quer um, não para quem apenas trouxesse consigo esforço, competência ou esperança.
A cidade acordava cedo, como se o trabalho ainda fosse uma promessa coletiva. Homens e mulheres percorriam as ruas com currículos dobrados, sapatos gastos e uma fé discreta no bolso.
Batiam às portas, perguntavam com educação ensaiada, sorriam com humildade estudada, e a resposta vinha sempre, com variações mínimas de entonação: “Já não há vaga”. Alguns ouviam “talvez de pois”, outros recebiam um silêncio que dispensava palavras.
Mas, no fundo, a mensagem era a mesma: o lugar existe, só não é teu. Curiosamente, as vagas nunca desapareciam por completo. Elas apenas se deslocavam. Tinham o hábito de surgir em mesas reservadas, em conversas de corredor, em ligações não atendidas publicamente.
Eram vagas discretas, seletivas, quase tímidas, que só se revelavam a quem já sabia que elas existiam. Não se anunciavam em cartazes, mas em sobrenomes. Não exigiam currículo, mas pertencimento.
Não pediam experiência, mas proximidade. Assim, instituiu-se uma nova lógica: não se buscava mais emprego, buscava-se acesso. A competência tornou-se um detalhe técnico, quase decorativo.
O essencial era outro: estar no lugar certo antes mesmo de o lugar existir. E quem não estava, restava-lhe a pedagogia da recusa, essa escola silenciosa onde se aprende, repetidamente, que o mérito, sozinho, é um argumento fraco num sistema que prefere atalhos. A ironia maior residia no discurso oficial.
Falava-se de oportunidades, de crescimento, de inclusão. Multiplicavam-se programas, seminários, promessas, a linguagem era generosa, quase poética, mas, na prática, a porta continuava fechada.
E o cartaz invisível permanecia intacto: “Há vaga acabou”. A frase tornava-se lema não declarado de uma socie dade que aperfeiçoou a arte de negar sem parecer injusta. Os jovens, esses eternos candidatos ao futuro, eram os mais afetados.
Formavam-se, especializavam-se, acumulavam certificados como quem acumula argumentos para convencer o mundo da própria utilidade, no entanto, descobriam, cedo de mais, que o problema não era falta de preparação, mas excesso de ingenuidade.
Acreditaram que o jogo era justo, e jogos injustos têm uma regra simples: não importa o quão bem jogues, se não foste convidado para a mesa. Alguns adaptavam-se, aprendiam a linguagem implícita, cultivavam relações estratégicas, substituíam o estudo pelo contacto, outros resistiam, insistindo nu ma ética quase teimosa, como se fosse possível corrigir o sistema apenas com coerência pessoal.
E havia ainda os que desistiam, não por incapacidade, mas por exaustão, afinal, há um limite para quantas vezes se pode ouvir “não há vaga” sem que algo dentro de si também se esgote.
A sociedade, por sua vez, pare cia confortável com essa dinâmica. Naturalizou-se o absurdo, tornou-se aceitável que portas se abram não pelo valor do indivíduo, mas pelo peso do seu entorno.
Questionar esse mecanismo era visto como ingenuidade ou, pior, como ressentimento, criou-se uma cultura onde a crítica ao sistema é mais condenada do que o próprio sistema. E assim, o erro da frase deixava de ser linguístico para se tornar estrutural.
“Há vaga acabou” não era apenas uma construção mal feita, era uma síntese perfeita de uma realidade mal-organizada. O verbo não concordava com o sujeito, tal como as oportunidades não concordavam com o mérito.
Havia um desalinhamento profundo entre o que se dizia e o que se praticava. No entanto, o mais inquietante não era a ausência de vagas. Era a presença constante da ilusão.
A ideia de que, com esforço suficiente, tudo se resolveria. A crença de que o sistema, por si só, corrigiria suas falhas. Essa ilusão funcionava como anestesia social, impe dindo que o desconforto se trans formasse em questionamento efetivo. Porque, no fundo, vagas sempre existiram. O que acabou foi a transparência.
O que se esgotou foi a equidade. O que desapareceu foi a honestidade do processo. E, talvez, o mais grave, o que se perdeu foi a confiança colectiva de que vale a pena tentar. “Há vaga acabou” não é apenas uma frase. É um diagnóstico.
É o retrato de uma sociedade que aprendeu a excluir com elegância, a negar com formalidade, a selecionar com critérios que raramente se declaram. E enquanto o cartaz invisível continuar pendurado nas portas, haverá sempre filas do lado de fora, não de incapazes, mas de invisíveis.
Por: REIS ADRIANO SIMÃO









