Sempre que vou a Benguela, chama-me a atenção as casas erguidas na zona dos Cabrais, na sequência de uma enxurrada que se abateu sobre a província e levou consigo muitas vidas humanas. Foi num período crítico. Entre as principais vítimas estavam os cidadãos que ergueram as suas casas no morro, muitos dos quais sem condições para construir num outro ponto, apesar da extensão territorial que a própria província possui.
Esta semana, à semelhança do passado, Benguela voltou a ser fustigada por uma forte chuva. Em quase todo o país, há registo de chuvas e prevê-se que, nos próximos dias, continue a chover; afinal, Abril, como se soe dizer, há sempre chuvas mil. Há poucos dias, a maior preocupação de muitos cidadãos em Benguela e não só era a hipotética seca que se observava, tendo colocado até em risco a sobrevivência de muitos anos.
Mas, agora, parece que São Pedro abriu por demais as torneiras. E a alegria que se poderia gerar num momento deste tornou- se um desespero para muitos que viram partir pai, mãe e filhos numa situação que se assemelha aos acontecimentos do passado.
Quando se pensava que fosse haver um verdadeiro projecto que visasse o desalojamento dos populares que habitam naqueles morros, a verdade é que, apesar do perigo ainda existente, vimos aumentar o número de construções como cogumelos. Lembro-me de que, na época, em Luanda, a Procuradoria-Geral da República havia feito um pronunciamento em que se apelava às autoridades no sentido de não só criar condições para os cidadãos que viviam naquelas condições inóspitas, como também que se travasse de uma vez por todas novos casebres em tais zonas.
Não precisamos de muito esforço para perceber que, depois do referido comunicado, quase nada foi feito, ou seja, tanto na capital, como noutros pontos do país, continuamos a assistir, impávidos e serenos, ao renascimento da tragédia, como as que tiveram lugar nas enxurradas deste Sábado. Enganam-se aqueles que têm vaticinado que a história não se repete. O cenário que se observa hoje era como se previsível.
Não tardará que, nos próximos tempos, infelizmente, assistamos a outras mortes. Ainda se pode evitar que outras tragédias aconteçam. Para tal, é imperioso que o Estado assuma o seu papel. Caso contrário, estaremos, de tempos em tempos, a lamentar por vidas que ainda poderiam ser salvas.








