O futebol africano é, por natureza, um território de contrastes. Entre a paixão inesgotável das suas gentes e as fragilidades das suas instituições, vai-se escrevendo uma história feita de avanços e recuos, de esperança e frustração. Ainda assim, há momentos em que o talento se impõe ao caos e a qualificação da República Democrática do Congo para o Mundial FIFA 2026, cinquenta e dois anos depois, é um desses raros instantes em que o tempo de cide fazer justiça.
É impossível olhar para este feito sem recuar a 1974, quando o então Zaire marcou presença no Mundial. Foi uma participação que ficou na memória por razões mais amargas do que gloriosas, mas que, ainda as sim, representou o início de um sonho. Durante décadas, esse sonho ficou adiado, perdido entre crises internas, desorganização estrutural e oportunidades desperdiçadas.
Hoje, o regresso da República Democrática do Congo é um reencontro com a dignidade competitiva. Mas esta crónica não se esgota na RDC. Ela expande-se a um continente inteiro que, apesar de tudo, continua a produzir talento em escala industrial. O Mundial de 2026 marcará a maior presença africana de sempre, com dez selecções: Marrocos, Senegal, Argélia, Tunísia, Egipto, Costa do Marfim, Gana, Cabo Verde, África do Sul e a própria República Democrática do Congo. Um número que fala por si, que traduz crescimento, mas também levanta uma questão inevitável: será que as estruturas acompanham o talento? Infelizmente, a resposta nem sempre é positiva.
O futebol africano continua refém de decisões administrativas polémicas, muitas vezes difíceis de compreender e ainda mais difíceis de aceitar. O recente episódio envolvendo a retirada do título ao Senegal no CAN é apenas mais um sinal de uma Confederação Africana de Futebol que ainda não conseguiu encontrar a estabilidade e a credibilidade que o seu potencial exige.
E é aqui que reside o maior paradoxo: África tem jogadores de classe mundial, selecções competitivas, mas continua a lutar contra si própria. Ainda assim, dentro de campo, o discurso é outro. Basta recordar o que o Marrocos fez no último Mundial, ao alcançar as meias-finais, para perceber que já não se trata de um sonho distante.
África não quer apenas participar, quer competir e quer fazer história. E neste contexto de expansão e ambição, há também espaço para a frustração. A ausência de Angola, vinte anos depois da sua estreia em 2006, é um golpe duro para quem acreditava no crescimento sustentado do futebol nacional.
Falhámos o regresso à maior cimeira do futebol mundial, e isso deve obrigar-nos a uma reflexão séria, desapaixonada e responsável. Não basta talento, não basta paixão, é preciso organização e compromisso com o futuro. O Mundial de 2026 será, sem dúvida, um palco privilegiado para África.
Dez selecções representam mais do que números, representam oportunidades, afirmação e responsabilidade. E, no meio de todas elas, a República Democrática do Congo surge como símbolo maior de resiliência, lembrando-nos que, no futebol, o tempo pode ser cruel, mas também sabe recompensar quem persiste.
Resta saber se África, enquanto bloco, estará à altura do seu próprio ta lento. Porque a história está pronta para ser feita, falta apenas coragem dentro e fora das quatro linhas.
Por: Luís Caetano








