A presidente da Liga Angolana Contra o Cancro, Luzimira de Carvalho João, em entrevista ao jornal O PAÍS, condena a falta de compromisso e imediatismo permanente das instutuições que transformam as campanhas como o Outubro Rosa e Novembro Azul num fenómeno sazonal, desaparecendo quando termina o calendário simbólico e deixando doentes e projectos sem apoio contínuo. De acordo com a líder associativa, nenhum governo consegue enfrentar sozinho o peso do cancro, mas enquanto não houver uma lei de protecção dos pacientes oncológicos, estes farão quioterapia e serão obrigados a ir trabalhar no dia seguinte
Em Angola, o cancro continua a ser diagnosticado, na maioria das vezes, em estado avançado?
Infelizmente, os diagnósticos do cancro, na maior parte das vezes, continuam a ser tardios. Esse facto tem dificultado bastante na resposta ao tratamento e também por várias questões estruturais e sociais que passam pela locomoção e acomodação, uma vez que temos poucos serviços de oncologia. Actualmente, contamos com três em Luanda, propriamente no Instituto de Controlo de Câncer, que faz o diagnóstico do cancro no geral, bem como o tratamento e o acompanhamento.
Agora temos também o Hospital General Pedro Maria Pedalé, que tem um serviço voltado somente para o cancro da mama. No Hospital Heróis do Kifangondo, em Cacuaco, é onde está o serviço de oncopediatria, ou seja, é nessa unidade onde são tratadas as crianças com cancro. A nível das outras províncias, temos o Hospital Geral da Huíla, que também já tem implementado os serviços de oncologia, não a 100%, mas já vai fazendo alguma coisa.
A nível da Liga Angolana Contra o Cancro (LACC), além da nossa sede em Luanda, temos também alguns núcleos provinciais na Huíla, em Cabinda, no Bengo e Benguela, onde se tem feito um grande trabalho de sensibilização e humanização do sector oncológico.
Mas é ainda um número muito reduzido para a demanda que se impõe, daí a necessidade da implementação de um plano estratégico, a nível nacional, para o controlo do cancro em Angola. Infelizmente, ainda não temos.
O que falta para que a cultura do rastreio se torne prática comum em Angola?
Desde 2015 que temos estado a trabalhar numa proposta para um plano estratégico a nível nacional de combate ao cancro, que passaria por promover campanhas sobre saúde oncológica, sensibilização para a importância do diagnóstico precoce, porque quando diagnosticado precocemente, o cancro tem elevadas chances de cura.
Então, precisamos de continuar a trabalhar afincadamente para garantir que mais províncias, ou, se possível, todas as províncias do país, possam ter um serviço de oncologia descentralizado.
O que se acompanha normalmente é que grande parte das pessoas que vêm para um diagnóstico e começar os tratamentos, saem da parte Sul. Acreditamos que há algum problema estrutural que faz com que o pessoal que vive na parte Norte chegue mais tarde. Provavelmente também tem a ver com a locomoção e a desinformação.
Quando as pessoas estão informadas, procuram os serviços para terem acesso ao tratamento. Mas a nossa realidade mostra que prevalece ainda o diagnóstico tardio, já num estado muito avançado da doença. Aqui, muitas vezes, o tratamento não é curativo, é apenas paliativo.
O que o diagnóstico tardio revela sobre o sistema de saúde angolano?
Estamos a verificar que, realmente, tem sido feito um esforço enorme por parte do nosso Governo para o sector da saúde, mas a nível da oncologia, uma vez que o cancro é um problema de saúde pública, não só a nível nacional, mas internacional, precisamos de trabalhar muito mais. O Governo teria que implementar, com alguma urgência, políticas para expandir os serviços de oncologia.
Entendemos que é um desafio enorme porque a oncologia é cara, aliás, a saúde é cara, mas é uma necessidade urgente continuarmos a bater nesta tecla. Continuar a pedir que, de facto, se implementem, e com alguma urgência, mais serviços porque os números estimados pela OMS vão aumentando cada vez mais.
A nível do mundo, já se fala do cancro como uma possível pandemia, logo, já não é só um problema de saúde pública. Enquanto dependermos de um único hospital para ver o cancro no geral, e mais dois hospitais para ver alguns tipos específicos, e estes centralizados em Luanda, continuaremos muito limitados.
Angola precisa de uma lei específica de protecção aos doentes oncológicos?
Há uma necessidade urgente do Governo angolano implementar políticas que possam expandir os serviços de oncologia a nível nacional. Reconhecemos que tem sido feito um esforço enorme, mas ainda não faz jus à realidade que se impõe.
Entendemos também que a economia angolana e a mundial atravessam uma fase não tão boa, mas nós também temos que ver quais são as prioridades e acreditamos que, no governo actual, a saúde e a educação têm sido prioridade. Acreditamos e queremos continuar a acreditar que mais esforços serão evidenciados para que, de facto, se possa reflectir a toda a população angolana.
Então, falta mais equipamento, mais profissionais ou mais políticas públicas?
Quando falamos em expansão do sistema de saúde, estamos a dizer que faltam também estes elementos. Faltam equipamentos, profissionais e políticas. Só para ter noção, nós não temos um plano estratégico nacional de combate ao cancro. Se houver um plano que nos possa orientar e que todo o país consiga implementar dentro dos hospitais, das escolas, e das igrejas, que são locais que concentram as massas, nós vamos facilmente informar a população sobre a existência da doença.
Mas, também, é importante fazer nota que até os países altamente desenvolvidos ainda lidam com o grande desafio do diagnóstico tardio. Não podemos assumir que o diagnóstico tardio está ligado somente à falta dessas políticas, porque, mesmo em países que já existem políticas implementadas, por se tratar de uma doença silenciosa e que muitas vezes os sintomas iniciais são confundidos com outras doenças, faz com que as pessoas percam tempo e haja o diagnostico tardio.
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Por: Stélvia Faria








