Asaída de Patrice Beaumelle do comando dos Palancas Negras reacendeu um debate antigo, quase cíclico no futebol angolano: por que não apostar, com convicção, num treinador nacional? Quando olhamos para trás, para aquele momento mágico de 2006, é impossível não lembrar que foi sob a liderança de Oliveira Gonçalves que Angola escreveu a página mais alta da sua história futebolística ao qualificar-se para o Mundial 2006, na Alemanha. Não foi obra do acaso, foi trabalho, crença, conhecimento profundo da matéria-prima humana que vestia a camisola nacional.
Em suma, foi o entendimento da nossa identidade. Hoje, depois do insucesso no último CAN, o país vive um momento delicado. Não é apenas uma questão de resultados, é também emocional. O adepto angolano está ferido, desconfiado, exigente e nestas fases, talvez mais do que um currículo internacional vistoso, seja preciso alguém que compreenda o contexto social, cultural e psicológico que envolve a selecção.
Um treinador angolano conhece os bairros onde nascem os talentos, entende a pressão da rua, fala a linguagem do balneário sem necessidade de tradutor, literal e emocionalmente. Sabe que o jogador do Girabola não precisa apenas de táctica, precisa de confiança, de proximidade, de alguém que acredite nele quando o mundo a sua volta duvida. Há também a questão financeira, a Federação Angolana de Futebol atravessa dificuldades conhecidas.
Optar por um técnico estrangeiro implica, muitas vezes, salários elevados, equipa técnica importada, custos logísticos adicionais, com casa, carro e outras mordomias. Num cenário de contenção, conciliar competência nacional com menor impacto financeiro nos cofres da FAF, pode ser mais do que uma alternativa, pode ser uma estratégia inteligente.
Nomes não faltam. Lito Vidigal, com experiência internacional e conhecimento da formação angolana; Adélio Cândido, adjunto de Rubem Amorim no Manchester United ; Miller Gomes, estudioso e atento à evolução do futebol moderno; Zeca Amaral, profundo conhecedor do nosso campeonato e da realidade local. Perfis diferentes, mas com algo em comum: ligação à nossa identidade futebolística. Nada contra os estrangeiros.
O futebol é universal e o intercâmbio é saudável, mas quando o técnico chega sem tempo, sem conhecimento do meio, sem adaptação à cultura competitiva angolana, o risco de fracassar é grande e a selecção não pode ser laboratório de experiências. Talvez o momento exija mais do que uma mudança de nome, exija sim, uma mudança de paradigma.
Apostar num treinador nacional seria também um sinal de confiança, acreditar que temos quadros preparados, que aprendemos com o passado e que estamos dispostos a construir um projecto sustentável. Porque, no fundo, a questão não é apenas quem vai substituir Patrice Beaumelle, a questão é que tipo de identidade queremos para os Palancas Negras.
Uma identidade importada, temporária e dependente? Ou uma identidade construída de dentro para fora, com erros, ajustes, mas com sentimento de pertença? O futebol angolano já provou que pode sonhar alto, talvez esteja na hora de voltar a confiar em si próprio. Por isso, defendo que umtreinador angolano entende a nossa realidade, conhece os campos, sente as dificuldades logísticas, percebe o contexto social dos atletas.
Essa proximidade pode compensar, em parte, a ausência de um departamento de selecções verdadeiramente estruturado, alinhado com as exigências do futebol moderno, onde tudo é planeado ao detalhe: observação contínua, integração das selecções jovens, metodologia comum, identidade de jogo e transição progressiva até à equipa principal. Hoje, as grandes nações não trabalham por ciclos imprevisíveis, trabalham com projectos.
Da formação à selecção A existe uma linha orientadora clara. Em Angola, essa linha muitas vezes é interrompida, provocando mudanças repentinas e falta de continuidade estratégica. Por isso, mais do que discutir apenas o visível, é urgente pensar profundamente. Um verdadeiro director das selecções nacionais, alguém com visão técnica, capacidade organizativa e autonomia estratégica, seria o cérebro desta engrenagem.
Um elo forte entre a estrutura técnica e o presidente Alves Simões, garantindo que as decisões não sejam apenas administrativas, mas profundamente desportivas. Sem essa figura, continuaremos a trocar treinadores sem mudar o modelo, e mudar nomes não é o mesmo que mudar rumos.
Se queremos os Palancas Negras fortes no presente e sustentáveis no futuro, precisamos de uma estrutura bastante coesa, métodos aperfeiçoados, uma liderança técnica clara e visionária. O treinador é importante, mas sozinho não salva um sistema que ainda não aprendeu a funcionar como uma verdadeira máquina.
Por: Luís Caetano









