Quem nunca foi vítima da “Luandalização” de Angola? Quem nunca percorreu quilômetros de distância para legalizar um estabelecimento comercial? Quem nunca percorreu quilômetros de distância para reconhecer o seu certificado de ensino superior? Quem nunca recorreu à Luanda para ver o seu estatuto de antigo combatente regularizado? Quem nunca socorreu-se do mercado luandense para poder fazer compras de produtos para depois comercializar na sua província de origem? Quem nunca decidiu viver e fazer a vida em Luanda por conta do comércio e de tantos outros factores? A resposta é clara: tudo é Luanda.
Tudo começa em Luanda. Tudo termina em Luanda. Esta tendência e este artigo surgem numa altura em que Angola viu recentemente a realização da cimeira entre a União Europeia e a União Africana, tendo Luanda, a capital, como anfitriã. Nota-se que, por este grandioso evento, a cidade de Luanda teve tolerância de ponto (ao abrigo do n.º3 do artigo 5.º da Lei n.º 10/11, de 16 de Fevereiro – Lei dos Feriados Nacionais, Locais e Datas de Celebração Nacional, conjugado com o disposto na Lei n.º 15/16, de 12 de Setembro — Lei da Administração Local do Estado), o que levou ao encerramento de diversas empresas, numa tentativa de gerar calmaria numa cidade “super-agitada”. É normal ou anormal? O que nos apraz dizer, é que Luanda parou — e, com ela, uma boa parte de interesses parou.
O mercado ficou sonolento. Isto ocorre numa altura em que se reconhece o tráfego móvel como sendo de certa forma precário, imagine as gentes nas paragens e as entidades a passar, o engarrafamento prejudicaria tanto a imagem do país, quanto a qualquer um de nós afectaria o normal decorro da cimeira (Já terminou). Entretanto, deve servir como lição para cada um de nós (governados e governantes) de que este problema só ocorre por conta da “Luandalização “, isto é, o problema da concentração excessiva de serviços e produtos de todo o gênero em Luanda — “ Luandalização “.
Surge numa altura em que também é oportuno recordar que no âmbito da descentralização e desconcentração, precisa-se fazer ainda, inicialmente só a desconcentração de Luanda. Parecerá mais fácil. Ou seja, na descentralização e desconcentração de Angola — comecemos por Luanda. Olhamos para este erro, porque em outras paragens não se comete o erro que temos vindo a cometer dia após dia, orçamento após orçamento, projecto após projecto.
Luanda é ao mesmo tempo capital política, económica, social, cultural e todo o tipo de capital. Numa viagem comparada vamos a África do Sul (a capital política é Pretória e a capital económica é Joanesburgo). Na Espanha (Madrid como capital política e Barcelona como capital económica). Até a nível do desporto a capital desportiva, concentração dos maiores clubes, é Luanda. Em Angola, tudo está em Luanda: política, economia, cultura, desporto, etc.
Não é uma fala aleatória “ de Luanda país de Angola ”. Deve o poder político/público ordenar no sentido de descentralizar Luanda, como ideal Luanda seria somente a capital política, consequentemente estariam os serviços de grande dimensão política, como as sedes dos ministérios, das grandes instituições, as sedes dos partidos políticos e instituições correlatas.
Mas é e será possível mudar muitas das narrativas e problemáticas, a título sugestivo poderíamos distribuir as diversas “capitais” da seguinte forma (apenas sugestões): – Bié – capital logística – está no centro de Angola e faz fronteira com 7 províncias (sem nenhuma outra), tanto é que é designada como a província coração, “um coração bombeia sangue”, (a título comparado na China, Xangai é a capital logística e não Pequim). – Huambo – capital cultural (a título comparado na Turquia, Istambul é a capital cultural e não Ancara). – Namibe – capital turística (a título comparado no Brasil, Rio de Janeiro é a capital turística e não Brasília).
Benguela – capital académica. Não se concebe que em Luanda estejam os principais centros universitários públicos de todas as dimensões, poderiam estar os privados, mas os públicos estariam em Benguela (a título comparado nos EUA, Boston em Massachusetts é a capital acadêmica e não Washington). – Icolo e Bengo – capital económica (a título comparado na Alemanha, Frankfurt é a capital econômica e não Berlim).
Tantos outros exemplos que não terminaríamos por aqui. O assunto di per si está aberto. Não é taxativo, mas quer exprimir um sugestão de novo projecto de Estado e não de província Capital. Do exposto acima referencie qual das capitais, Luanda não é? – a resposta é clara. Se nada mudar o quadro, sempre que houver eventos como a referida cimeira, voltaremos a ter o mesmo problema: paralisação de Luanda, paralisação da economia nacional e retrocesso do desenvolvimento económico-social.
E configura-se como triste, nos dizeres de um professor, “ os sucessivos feriados e interregnos (pausas) em Angola não mexem sobretudo com a produção, mas com a produtividade ”. E esta mesma produtividade é mãe da produção, é a base de uma economia sólida e próspera. Contudo, é preciso “ esvaziar Luanda ” para que ela cresça com qualidade.
Não é das melhores a imagem que temos, luxo a coabitar com a miséria, longe dos castelos de arreia e latas – Prodígio. Luanda ainda pode ser melhor, e todos devemos lutar para que seja melhor ( Luanda precisa de ti ). Uma província não se valoriza ou se torna grandiosa só pelos serviços que concentra, mas pela capacidade e suavidade dos serviços que demonstra ao mundo e aos seus concidadãos.
Por: DELVINO CACONDA









