A primeira vez em que visitei o Kilamba foi numa visita de trabalho do malogrado Presidente José Eduardo dos Santos. Tinha ido averiguar o andamento das obras e era grande o entusiasmo dos que o acompanhavam, sobretudo os membros do seu staff então envolvidos directamente no referido projecto. Era enorme a alegria tanto do antigo Chefe de Estado como dos membros do seu Executivo.
Estávamos longe, inclusive, de um dia sequer ousar em pensar que alguém se pudesse arrogar de ser detentor de centenas ou milhares de imóveis na edilidade.
Na altura, o que pairava nas mentes dos presentes, incluindo jornalistas e outros profissionais presentes na actividade, era que o Estado angolano abria hipóteses de se cumprir mais uma das suas obrigações constitucionais, que passam por criar condições de habitabilidade para os seus cidadãos. Construído de raiz, a centralidade do Kilamba era, naquela fase, uma verdadeira ex-libris.
Com ruas devidamente asfaltadas, iluminação e jardins impecáveis, esgotos sem quaisquer problemas e uma organização que demonstrava existir uma impecável administração do Estado. Não era em vão que, quando muitos estadistas visitassem o nosso país, a maioria dos quais em trabalho, as autoridades angolanas convidavam sempre os seus homólogos a conhecerem a referida obra de engenharia, cuja singularidade era sempre manifestada pelos próprios visitantes como sendo um dos poucos casos de sucesso no continente.
Naquela fase, viver no Kilamba era sinónimo de uma melhor qualidade de vida. Para muitos ainda é; porém, os sinais que vão surgindo indicam que estaremos diante de uma realidade a prazo, se se tiver em conta as inconformidades e anormalidades que crescem a olho nu sem que se ponha sequer um travão.
A centralidade que era a menina dos olhos bonitos até de dignatários estrangeiros começou, inicialmente, por ver muitos dos seus largos invadidos a troco de uma suposta prestação de serviço que culminou com a repartição em pequenosterritóriosparadiversasactividadescomerciais, culturais e turísticas.
Os espaços vazios, ao redor dos prédios e não só, muitos dos quais deixados para vegetação, jardins e outros espaços de lazer, começaram a ser tomados de assalto de forma assustadora pela força do betão, que só se acredita ser possível com o beneplácito das autoridades locais.
A velocidade com que se constroem lojas, cantinas, bares e armazéns atropela a própria estrutura arquitectónica e vai esforçar uma série de serviços que se pensava estarem plenamente definidos. Não se sabe por que razão não se levaram as construções ao redor dos prédios nos terrenos que sempre existiram nas redondezas da centralidade, onde desempenhariam melhor as funções que se dizem propostas.
A esta hora, os projectistas e arquitectos que idealizaram a Centralidade do Kilamba e outras do país terão sérias dificuldades em acreditar que se trata do mesmo projecto imobiliário que já foi o nosso grande cartão de visitas.









