Porque falar mais não significa decidir melhor — e o custo silencioso dessa confusão Há um risco discreto que se instalou no funcionamento das instituições contemporâneas: a substituição gradual da governação pela comunicação. Não por má-fé, mas por desvio de foco. Quando falar passa a ser mais urgente do que decidir, algo estrutural começa a falhar. Governa-se menos pelo impacto produzido e mais pela percepção gerada. Comunicar é indispensável. Tal como num sistema nervoso, é a comunicação que permite coordenação e resposta.
Mas quando o sistema nervoso começa a funcionar sem músculo nem esqueleto, o corpo move-se — sem força real. A mensagem circula, mas a transformação não acontece. Há sinal, mas não há potência. O problema surge quando a comunicação deixa de ser consequência do trabalho feito e passa a ser o próprio trabalho. Anuncia-se antes de estruturar, divulga-se antes de consolidar, reage-se antes de decidir.
É como pintar uma fachada enquanto as fundações ainda não foram revistas: a imagem melhora, mas a estrutura continua vulnerável. E quanto mais se investe na fachada, mais caro se torna corrigir o que foi ignorado por baixo. Esta lógica cria uma ilusão confortável de progresso. A sociedade vê actividade, acompanha discursos, consome narrativas.
Mas, tal como um painel de controlo cheio de luzes num avião sem plano de voo, há movimento e ruído — sem direcção clara. Os indicadores piscam, os comunicados sucedem-se, mas ninguém sabe exactamente para onde o sistema está a ir. Neste modelo, a comunicação deixa de servir a governação e passa a governá-la. As decisões são tomadas em função do impacto mediático, não da sua robustez estrutural.
Prioriza-se o que rende manchete em detrimento do que exige tempo, método e persistência. O curto prazo vence o necessário. Comunicação eficaz exige densidade. Caso contrário, transformase em eco.
E o eco, quando prolongado, amplifica o vazio em vez de o preencher. Instituições que comunicam muito, mas entregam pouco, acabam por gastar o seu capital de credibilidade antes de produzirem impacto real. A confiança pública, uma vez erodida, não se recompõe com mais comunicados. Governar é escolher, priorizar e sustentar decisões no tempo.
É aceitar que resultados duradouros não cabem em ciclos curtos de atenção pública. Tal como numa maratona, acelerar nos primeiros metros pode impressionar, mas raramente garante chegada sólida ao fim.
Governação é resistência estratégica, não apenas velocidade narrativa. Quando comunicar passa a ocupar o espaço da governação, o Estado parece presente — mas torna-se leve demais para carregar o futuro. A questão central não é se estamos a comunicar bem. É se estamos a construir, com consistência, aquilo que comunicamos.
Por: EDGAR LEANDRO








