O etnomusicólogo, produtor, compositor, criador e coordenador de projectos de cooperação espanhol, David López Sáez, efectuou em Luanda novos arranjos de música tradicional cokwe para orquestra, depois de ter finalizado o seu doutoramento sobre o Cisanji (kisanji em cokwe), no nordeste do país. Trata-se de um estudo do próprio instrumento como objecto, assim como da música que é interpretada com ele, uma vez que se verificou que hoje em dia é uma prática em desuso e muito difícil de encontrar entre músicos dedicados a este tipo de instrumentos
Oobjectivo da sua tese foi mesmo realizar um estudo comparativo entre as músicas para Cisanji registradas pela Diamang (extinta Companhia de Diamantes de Angola) a meados dos anos 50 e a prática actual do instrumento na região nordeste do país. Em entrevista ao Jornal OPAÍS, também coordenador do projecto, Thambwé, na cidade de Dundo (Lunda Norte), onde viveu durante vários anos, fala da sua longa experiência neste domínio, dos projectos, das dificuldades no terreno e da sua interacção com a comunidade local.
Há quanto tempo desenvolve o projecto de transcrição de músicas angolanas para o formato de Orquestra Clássica e qual é o objectivo principal desta iniciativa?
Este projecto teve o seu início em 2018, quando comecei a colaborar com a Escola de Música Kaposoka, graças à Cooperação Cultural da Embaixada de Espanha em Angola. Inicialmente o meu contributo era oferecer aulas de piano e harmonia aos alunos da escola. Depois de alguns meses na instituição, comecei a escrever arranjos, já que foi identificada a necessidade de criar um repertório de músicas angolanas para a orquestra.
A Kaposoka era formada por instrumentos de corda (violino, viola, violoncelo e contrabaixo) e alguns sopros e, como Orquestra Clássica, interpretava algumas músicas clássicas. A ideia era começar a escrever um repertório para este tipo de formação baseado na própria música nacional. Daí nasceu este projecto com o objectivo de apoiar o desenvolvimento de orquestras clássicas em Angola, através da valorização da própria cultura, da sua identidade e diversidade.
Em 2024, apresentou também em Luanda arranjos de músicas angolanas para Orquestra Clássica. Como foi o mesmo trabalho recebido pelo público na sua primeira apresentação pela Orquestra?
Depois de vários anos de cooperação com Kaposoka, em 2024 foi realizada a primeira colaboração com a Orquestra Yetu, e neste sentido foram apresentados novos arranjos escritos para tal ocasião.
A recepção foi boa. Como disse anteriormente, a iniciativa é apoiada na sua totalidade pela Acção Cultural da Embaixada de Espanha em Angola. O maior desafio reside na dificuldade de desenvolver as partituras, derivada da complexidade dos diferentes ritmos angolanos e da sua transcrição. Porém, os músicos normalmente atingem bons resultados, já que reconhecem estes ritmos e conseguem interpretá-los com sucesso.
Acabou de fazer também novos arranjos de Música Tradicional Cokwe para Orquestra Clássica. Como surgiu esta ideia e em que consistiu o seu repertório?
Este ano foi organizado um novo concerto com a Orquestra Yetu por parte da Embaixada da Espanha. Teve lugar no Instituto Guimarães Rosa, no passado dia 13 de Dezembro, e foi apresentado um novo arranjo/composição. Esta nova peça, de maior duração, está baseada num conceito um pouco diferente em relação às músicas anteriores.
Os antigos arranjos eram praticamente uma tradução literal da música original que se pretendia representar. Nesta ocasião, há um maior trabalho pessoal como compositor e são “misturadas” diferentes numa mesma peça, mas, como inspiração, como uma “cópia” totalmente fiel ao original. Para isto foram seleccionadas algumas músicas cokwe.









