OPaís
Ouça Rádio+
Ter, 13 Jan 2026
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Jornal O País
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Ouça Rádio+
Jornal O País
Sem Resultados
Ver Todos Resultados

A felicidade sob a tirania da visibilidade (I)

Jornal OPaís por Jornal OPaís
18 de Novembro, 2025
Em Opinião

Até que ponto o desejo de mostrar o que vivemos não nos faz viver menos o que mostramos? A contemporaneidade instituiu uma verdadeira metamorfose da felicidade: já não se manifesta como um modo de ser enraizado na interioridade, mas como uma narrativa pública, cuidadosamente editada e exibida. Ser feliz, já não significa simplesmente sentir, mas também mostrar o sentir. Hoje, pode-se dizer que, em muitos casos, existimos na medida em que somos vistos.

Poderão também interessar-lhe...

Entre Belma e supostos predadores sexuais: momento de estupro mental, colectivo e glória de prazeres forçados

Integração regional: Angola como protagonista estratégico no desenvolvimento económico de África

A modernização com características chinesas aos meus olhos

A visibilidade tornou-se o novo critério ontológico do real. Publicamos sorrisos, jantares, viagens, conquistas: gestos simbólicos de pertença a um imaginário colectivo de sucesso. A esfera do íntimo dilui-se na lógica da exposição.

Cada “gosto”, partilha ou comentário funciona como sinal de pertença e afecto, quase como se o amor pudesse ser traduzido em reacções digitais. Talvez essa seja, afinal, uma nova linguagem do sentir, uma forma contemporânea de expressar afecto num mundo mediado pela tecnologia.

As redes sociais erguem-se como a nova “Ágora” da modernidade – um espaço onde o homem contemporâneo procura ser visto, ouvido e reconhecido. Contudo, o diálogo, a partilha e o debate cedem, muitas vezes, lugar à performance – entendida aqui como encenação social, orientada pela necessidade de visibilidade e aprovação. O sujeito, cindido entre o que é e o que exibe, busca no olhar alheio não apenas confirmação, mas legitimação da própria existência.

Neste cenário, busca-se reconhecimento antes de auto-conhecimento, aplauso antes de sentido. Há, contudo, algo de profundamente inquietante neste processo: se precisamos provar que somos felizes, estaremos, de facto, a sê-lo? Ou estaremos apenas a representar uma felicidade que, no fundo, nos escapa? Talvez devamos ainda questionar se é a exposição da felicidade que corrompe, ou se é a nossa necessidade de exibi-la que denuncia o seu vazio interior.

Não se pode negar, porém, que o olhar do outro pode intensificar a nossa alegria, pois somos seres de relação (zoon politikon). Mas, quando esse olhar se torna condição do sentir, converte-se em dependência.

Na Ética a Nicómaco, Aristóteles define a felicidade (eudaimonía) como o fim supremo da vida humana — aquilo que é desejado por si mesmo e nunca como meio para outro fim.

Para o filósofo, a felicidade não é um estado emocional passageiro, mas uma acção da alma conforme à virtude (areté), guiada pela razão (logos). Ser feliz é viver de modo racional e moralmente excelente, praticando o justo meio (mesótes), esse equilíbrio prudente que evita tanto o excesso como a carência. Contudo, no nosso tempo, essa felicidade ética transformou-se em representação social, medida pelas métricas da visibilidade.

O valor da experiência deslocouse do interior da consciência para o exterior da exibição. Todavia, é importante reconhecer que nem toda expressão pública da felicidade – o que muitos filósofos contemporâneos preferem designar por alegria – se reduz a mera aparência. Mostrar momentos de alegria não é, em si, um mal, pois o gesto pode brotar da gratidão, da partilha ou do desejo legítimo de comunhão.

O problema começa quando o acto de mostrar substitui o próprio viver, e o valor do que se vive passa a depender da aprovação alheia. Aristóteles advertiria que, nesse ponto, o homem perde a sua autarkeia — a autossuficiência, a capacidade de bastarse a si mesmo, de ter em si o suficiente para viver bem (feliz), sem depender excessivamente de factores externos.

O indivíduo que perde a autarkeia abandona a sua natureza racional e ética, tornando-se escravo do acaso e da opinião alheia. Aquele que precisa de aplausos para sentir-se pleno já não é senhor de si mesmo: age, não por deliberação racional (prohairesis), mas por necessidade de visibilidade. Entretanto, a visibilidade não é, por si, inimiga da autenticidade. Em muitos contextos, sobretudo africanos e lusófonos, tornar-se visível é um acto de resistência: onde antes houve silêncio, exibir-se é recuperar a dignidade de existir. A questão não é rejeitar o parecer, mas reconciliá-lo com o ser.

É nesse horizonte que nasce a “estética da verdade”, uma forma de presença em que o ser e o parecer se iluminam mutuamente. Não se trata de expor o íntimo, mas de alcançar coerência entre o visível e o vivido. É, em essência, uma ética da forma: “parecer sem trair o ser, ser sem negar o parecer”.

Nessa estética, a imagem não substitui o real, antes a prolonga, como extensão luminosa de uma verdade interior. Portanto, mostrar pode ser legítimo, desde que a partilha nasça da autenticidade e não da necessidade de aprovação. O equilíbrio, e não o retraimento, é o caminho da virtude.

Nessa harmonia entre ser e parecer reencontramos o sentido mais profundo da eudaimonía: uma vida que se basta a si mesma, mas que, ao partilhar-se, não se corrompe — antes ilumina. O humano já não é apenas presença física, mas também fluxo, relação e linguagem.

Ser contemporâneo talvez signifique, afinal, aprender a existir entre imagens e afectos, entre corpo e projecção, cultivando o justo meio (mesótes). E aqui se abre a questão que ficará para a próxima reflexão: se a felicidade, na era digital, se tornou também uma imagem, como distinguir o rosto da máscara? Talvez essa seja, afinal, a tarefa mais urgente do nosso tempo — reaprender a reconhecer o real sob o brilho das aparências.

Por: Carlos Pimentel Lopes

Jornal OPaís

Jornal OPaís

Recomendado Para Si

Entre Belma e supostos predadores sexuais: momento de estupro mental, colectivo e glória de prazeres forçados

por Jornal OPaís
13 de Janeiro, 2026

Não me opus à interpretação sobre o acto bárbaro assistido nos últimos tempos em todo território Nacional, fruto da confluência...

Ler maisDetails

Integração regional: Angola como protagonista estratégico no desenvolvimento económico de África

por Jornal OPaís
13 de Janeiro, 2026

A experiência histórica do desenvolvimento económico evidencia, com consistência teórica e empírica, que os processos de transformação estrutural bem-sucedidos em...

Ler maisDetails

A modernização com características chinesas aos meus olhos

por Jornal OPaís
13 de Janeiro, 2026

Lembro-me, como se fosse ontem, das conversas de fim de tarde no pátio da casa da minha avó, em Viana....

Ler maisDetails

Comunicação institucional não é jornalismo!

por Jornal OPaís
13 de Janeiro, 2026
Foto de: PEDRO NICODEMOS

Há três semanas, numa conversa com um amigo, depois de ter viajado por algumas províncias do país, confessou-me estar bastante...

Ler maisDetails

Operação “Binária” leva à detenção mais de 30 pessoas e apreensão de armas em Luanda

13 de Janeiro, 2026

Complexo Hospitalar Cardeal Dom Alexandre do Nascimento realiza com sucesso primeira cirurgia cardíaca de 2026

13 de Janeiro, 2026

Vice-presidente do MPLA apela à união e organização para superar os desafios de 2026

13 de Janeiro, 2026

Chefe de Estado termina visita à Refinaria do Lobito

13 de Janeiro, 2026
OPais-logo-empty-white

Para Sí

  • Medianova
  • Rádiomais
  • OPaís
  • Negócios Em Exame
  • Chiola
  • Agência Media Nova

Categorias

  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos

Radiomais Luanda

99.1 FM Emissão online

Radiomais Benguela

96.3 FM Emissão online

Radiomais Luanda

89.9 FM Emissão online

Direitos Reservados Socijornal© 2026

Sem Resultados
Ver Todos Resultados
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Ouça Rádio+

© 2024 O País - Tem tudo. Por Grupo Medianova.

Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você está dando consentimento para a utilização de cookies. Visite nossa Política de Privacidade e Cookies.