Depois de um longo período de pausa estratégica, o “Caldo do Poeira”, também conhecido como “Arquivo Vivo da Cultura Angolana”, surge agora mais reforçado, esmerado e com muita força anímica, visando devolver ao grande público a alegria que sempre o proporcionou, a confraternização, os abraços que pareciam não mais voltar e as largas passadas que, durante muitos anos, fizeram o deleite dos convivas, escrevendo nomes de ilustres figuras no salão do Centro Recreativo e Cultural Kilamba, no Rangel, espaço que acolheu o evento por vários anos
O emblemático programa “Caldo do Poeira”, do Grupo Rádio Nacional de Angola, regressa este domingo, 31, no Espaço Prova DArte, no Miramar, em Luanda, com memórias, histórias e sonoridades que marcaram e ainda marcam distintas gerações de angolanos e não só. Preparado ao detalhe e aguardado com muita expectativa, a simbiose “palavra e música, música e palavra” estará no centro da estrutura do programa, a ser apresentado por Isaías Afonso.
O convívio, com a duração de quatro horas, estará dividido em três momentos distintos e contará com o suporte instrumental da Banda Movimento, que apesar de residente e da experiência nestas lides, pode ser substituída ou reforçada se as circunstâncias exigirem. Nesta prestigiada edição de retorno, a organização espera congregar no referido espaço mais de 500 pessoas, tendo reservado para o efeito sete horas de convívio.
Mas, por se tratar de um “talk show”, o concerto como tal terá aproximadamente 4 horas de duração. No interior do novo espaço eleito para o reinício do programa, profissionais da maior estação radiofónica do país, assim como a equipa de coordenação artística do local, não medem esforços e trabalham lado a lado para tornar o programa mais abrangente e participativo.
O objectivo é congregar os convivas e os visitantes do recinto, à semelhança do que foi sendo feito nas edições anteriores, antes da pausa observada, matar as saudades, reviver os memoráveis tempos de glória, trazer de volta os prestigiados ritmos populares urbanos do antigamente e devolver o palco a figuras lendárias da música nacional. Nesta edição de retorno, fará um tributo emocionante ao legado deixado pelo inesquecível Trio da Saudade, composto por David Zé, Urbano de Castro e Artur Nunes, numa acção coordenada com os talentosos músicos, compositores e intérpretes, Mister Kim, Suzanito e Zé Manico.
Numa actuação de aproximadamente três horas, Mister Kim, Suzanito e Zé Manico, farão uma incursão no tempo, interpretando temas do Trio, na sua mais perfeita harmonia e energia contagiante. “Rosa Maria”, “Merengue Rebita”, ‘‘Maria da Horta”, de Urbano de Castro, “Namorada do Conjunto”, “Lamento de Angélica”, “Kalumba Nguma”, de David, “Zinha”, “Mana”, “Dituze”, de Artur Nunes, são, entre os vários temas, algumas das propostas.
Além da história e da nostalgia que se vai viver e sentir no palco e no espaço, o programa “Caldo do Poeira” será uma celebração da música, da memória e da nossa identidade cultural, que será também prestigiada por Don Caetano e Maya Cool, bem como pelos convidados desta edição especial, 20 anos depois. Símbolo de resistência cultural Para a Rádio Nacional de Angola, entidade organizadora do evento, o regresso do “Caldo do Poeira” é visto como um acto de resistência cultural, num tributo à identidade angolana e uma ponte entre gerações.
Além de homenagear os clássicos, abriu espaço a novos talentos que recriaram temas de artistas, muitos deles desaparecidos do panorama artístico-cultural, promovendo um verdadeiro intercâmbio musical e reforçando a presença da música angolana no mundo. O projecto, criado há mais de 20 anos, percorreu 14 das então 18 províncias do país e realizou mais de 90 edições, muitas delas com o suporte instrumental da Banda Movimento.
A organização recorda que o seu impacto também se fez sentir no jornalismo cultural, tendo lançado nomes como Sebastião Lino, Amílcar Xavier, Isaías Afonso, Miguel Pacheco, Paulo Gomes, Angelina Canjengo, Carlos Bequengue, Isalino Paulo, José Casemiro “Zé Toy”, Hilário João, Paulo Tonet, entre outros, que deram voz a esta verdadeira torre da memória sonora nacional.
Sublinha que o projecto proporcionou igualmente o lançamento de mais de 20 colectâneas musicais denominadas Colecção Poeira no Quintal, de aristas e bandas musicais, homenageadas nas diferentes edições do “Caldo do Poeira”, com destaque para David Zé, Mamukueno, Artur Adriano, Chico Montenegro, António do Fumo, Kissangela, Boto Trindade, Paulo 9, Matadidi, Samangwna, Zé Viola e tantos outros.
Prova D’Arte preparado para o evento histórico
Enquanto isso, o anfitrião Rui José, coordenador artístico do Espaço D Arte, garantiu que estão criadas as condições para o arranque do evento que marcará a Primeira Edição do Reencontro com o Trio da Saudade, naquele recinto. O responsável considerou a produção do programa no referido espaço como uma excelente escolha e um grande privilégio que comemora o regresso de uma marca importante na divulgação, valorização e preservação da Cultura Nacional.
“É um privilégio acolher o ‘Caldo do Poeira’ aqui no Prova D Arte, uma vez que marca o reencontro com Trio da Saudade, que vai recordar sutilezas que o tempo jamais apagará. É o regresso daquele que é considerado um dos maiores arquivos vivos da nossa cultura no país ao nível da rádio”, disse. Rui José assegurou que, além desta edição, a organização já tem previstas novas datas para as próximas realizações do caldo no mesmo recinto e com bastante frequência.
Garantiu prontidão da parte do espaço, tendo avançado que os ingressos já estão a ser comercializados e o público está a aderir com bastante fluidez. “Os ingressos já estão ao dispor do público e prevemos receber uma média de 700 pessoas no Espaço. Em ocasiões diferentes, recebemos 450 pessoas deste lado, e do outro 600”, precisou.
Por sua vez, o coordenador executivo da Comissão Organizadora do “Caldo do Poeira”, Simão Bequengue, assegurou que o regresso do Caldo do Poeira está a ser preparado de modo a fazer jus aos mais de vinte anos da sua existência.
Referiu que, embora o mesmo tenha uma matriz própria, cada edição é única, razão pela qual não podem colocar de parte a vertente pedagógica e de pesquisa, uma vez que o Caldo continuará a ser servido ao som da boa música angolana dos anos 40, 50, 60 e 70.