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A união que Angola precisa fora das quadras

Jornal OPaís por Jornal OPaís
26 de Agosto, 2025
Em Opinião

Depois de mais de uma década sem vitórias expressivas, Angola reencontrou-se com o brilho perdido e devolveu ao povo a alegria de viver, mesmo que por alguns dias, esquecendo os problemas políticos e sociais.

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O Afrobasket sempre foi mais do que um torneio: é uma chama que une os angolanos sem cor partidária, sem rivalidades desportivas e sem denominações religiosas. Aqui, somos todos Angola.

Somos todos um. O que se viu em campo foi um espectáculo de garra e talento, mas também de suor, sacrifício e lágrimas. Foi a prova de que os “diamantes” do basquetebol angolano continuam a lapidar a esperança de uma nação inteira.

Cada cesto convertido, cada defesa corajosa e cada vitória sofrida foram gritos de libertação de um povo que, tantas vezes, se sente sufocado pelas dificuldades da vida.

Mas o espectáculo não esteve apenas dentro das quatro linhas. Jogadores que, por diversas razões, não pisaram o campo, porque não fizeram parte dos seleccionados, e os ex-jogadores que fizeram das bancadas o seu terreno de jogo.

Nomes como Kikas (Joaquim Gomes), Baduna (Edmar Victoriano), Carlos Morais, Yanick Moreira, Miguel Lutonda, Olímpio Cipriano, Jean-Jacques Conceição e tantos outros mostraram que ser parte da seleção vai muito além da bola na mão.

A sua presença, os seus gestos e a sua voz ecoaram como combustível de motivação para aqueles que defendiam as cores da bandeira em campo. E ali estava também o eterno treinador Vitorino Cunha, que quase entrou para gritar em solidariedade e que, no final, deixou escorrer lágrimas que simbolizavam a memória de uma história de glórias.

Bruno Fernando, em gesto de humildade e grandeza, não esqueceu de saudar essas figuras. O cumprimento não foi apenas protocolo: foi o reconhecimento da herança e do caminho aberto por gigantes que transformaram o basquetebol angolano numa referência do continente. Foram dias de emoções intensas. Muitos choraram em campo e nas bancadas.

Houve quem tivesse o coração fora do lugar, quem deixasse o jantar posto à mesa para só tocar na comida depois da partida, e quem, em gesto de devoção, nem sequer arrumou a mesa para se juntar à frente da televisão. Houve mulheres que suspenderam o ritual da noite, homens que escolheram o restaurante ou o bar como extensão da arena, e famílias que fizeram do basquetebol o seu altar.

De forma quase irónica, o campeonato veio provar que, afinal, não há hipertensos em Angola. Um país inteiro suportou todas as pressões, vibrou até o último segundo e gritou de alegria sem que se tivesse notícia de mortes devido às emoções. Foi o milagre da bola laranja: a cada posse, a cada jogada, Angola encontrou coragem para resistir. E o povo não ficou atrás.

Houve quem saísse mais cedo do serviço para correr ao pavilhão, quem, sem condições de entrar, se juntasse do lado de fora para ouvir o eco das jogadas. Outros acompanharam do leito do hospital, de um posto de segurança, de um rádio empoeirado sem antena ou da tela emprestada de um vizinho solidário.

No fundo, todos foram jogadores, todos foram parte dessa vitória. O basquetebol mostrou mais uma vez que Angola é um povo forte e unido, na alegria e na tristeza. Este Afrobasket devolveu-nos a capacidade de sorrir juntos. De recordar que, apesar das diferenças e das feridas sociais, somos capazes de nos unir em torno de um sonho.

E se conseguimos vibrar juntos pelo basquetebol, por que não vibrarmos juntos pela vida? É desta união que o país precisa para se erguer. O mesmo espírito que nos leva a esquecer bandeiras partidárias diante da bandeira nacional deve ser transportado para o dia a dia.

Precisamos vibrar não só pelas vitórias desportivas, mas também pelas conquistas sociais, pela justiça, pela educação e pela saúde. Angola tem de aprender com o Afrobasket que só a união gera força verdadeira.

A juventude, em especial, espera oportunidades. Que o mesmo país que vibra com os cestos de Bruno Fernando saiba também abrir portas de emprego e garantir escolas de qualidade. Que o mesmo calor que se sente nas bancadas seja sentido nas salas de aula, nos estágios profissionais e na criação de políticas públicas que inspirem o futuro.

Se conseguimos resistir à pressão de um prolongamento e ao suspense de um resultado incerto, também podemos resistir aos desafios da pobreza, da desigualdade e da falta de oportunidades. Se nos emocionamos com lágrimas de vitória, podemos igualmente transformar lágrimas de dor em esperança e em trabalho colectivo.

O Afrobasket é, portanto, mais do que um campeonato. É um espelho do que Angola pode ser quando caminha de mãos dadas. A bola laranja mostrou que temos coração, coragem e fé.

Resta agora transportar essa força para a realidade, onde o maior campeonato é o da dignidade, da oportunidade e da justiça para todos. Que a memória deste Afrobasket não se perca na poeira do tempo.

Que as lágrimas de alegria que correram nos rostos dos angolanos se transformem em sementes de esperança. Que o mesmo grito que ecoou nas arenas e nas ruas seja o sopro que desperta a nossa consciência colectiva. Porque Angola, tal como no basquetebol, só vence quando joga unida.

Por: YARA SIMÃO

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