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Vandalismo – O desfile da pobreza da educação

Jornal OPaís por Jornal OPaís
31 de Julho, 2025
Em Opinião

Os males mais terríveis e perigosos do ser humano são aqueles que se instalam na sua consciência. Quando esta faculdade — a consciência — é acometida, o ser humano perde a noção e o discernimento entre o “bem” e o “mal”.

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O discernimento é a capacidade que assegura a boa conduta e o bom comportamento das pessoas, pois, diante de qualquer situação de conflito de valores, permite ao indivíduo julgar o que é adequado, conveniente e caridoso, e distinguir do que é inadequado, inconveniente e desumano.

A consciência é, por isso mesmo, o campo mais sensível do ser humano: dela provêm as melhores virtudes, mas também as piores barbaridades. Entre as condições que debilitam e tornam vulnerável a saúde da consciência, as mais violentas são: a fome, a pobreza, a miséria, a injustiça social, a repressão e a ausência de orientação.

Indivíduos imersos nestas condições estão mais propensos a comportamentos desviantes, ao cometimento de crimes e a actos desumanos. Por isso, combater a pobreza e a miséria, fomentar a justiça social e orientar adequadamente os cidadãos são medidas salutares para a saúde da consciência e o bem-estar social.

Cultivar, conservar, potenciar e cuidar da saúde da consciência deve ser prioridade de cada indivíduo — e do Estado. Negligenciar a saúde da consciência dos indivíduos é criar um viveiro de comportamentos como os que estamos a assistir pelo país nos últimos dias: vandalização, saqueamento de bens públicos e privados, roubos, violência, confrontos entre a polícia e as populações — tudo isso representa, ao mais alto nível, um desfile da pobreza e da miséria na consciência dos indivíduos.

Onde está, afinal, o problema? O professor Laurindo Vieira, de feliz memória, nas suas intervenções públicas, chamava a atenção para a “finalidade axiológica da educação”.

Defendia o ilustre académico que a educação tem como objectivo primordial “formar bons cidadãos para a sociedade”. Compreendia, igualmente, que, no nosso contexto, havia muitos desafios, pois não lhe parecia existir clareza suficiente sobre os fins que persegue a educação promovida pelo Estado.

Aquando da nossa formação como Professores de Educação Moral e Cívica e Agentes da Pastoral, pelo ICRA — Regional do Huambo — o apelo que os nossos professores faziam era: “reacender a chama da voz da consciência dos indivíduos por meio da educação”.

Entendia-se que esta instância moral arbitrária era o travão necessário para a tendência comportamental decadente visível na sociedade angolana. Naquele contexto, e estando em voga a campanha nacional denominada “Resgate”, a nossa missão era a de sermos os médicos da “voz da consciência”.

Aliado a isso, em Organização e Gestão Escolar, aprendemos a relação tricotómica entre Estado – Escola (Educação) – Sociedade. Nesta relação, o Estado é o ente determinante e impulsionador dos outros; ou seja, o tipo de educação (escola) depende do tipo de cidadãos (pessoas) que o Estado (governo) quer formar para a sociedade. Em outras palavras, os cidadãos são reflexo das políticas educativas do seu governo.

Por que este assunto da educação neste tema sobre vandalismo e pilhagem?

A educação é o hospital para a prevenção, tratamento e cura da consciência. Quer seja a que se processa nas famílias, na sociedade ou nas escolas — formal ou informal — a educação, com as suas distintas componentes, é a única capaz de equipar os indivíduos com o discernimento necessário entre o bem e o mal.

Como estão os nossos hospitais educativos?

O quadro angolano, neste quesito, não é fácil de ser descrito, pois, tal como dizia o Professor Laurindo Vieira, não parece haver clareza sobre o que representa, de facto, a educação em Angola — sobretudo no que diz respeito aos fins axiológicos.

Quando, no Orçamento Geral do Estado, se prioriza a defesa e segurança em detrimento da educação, essa falta de entendimento torna-se ainda mais evidente. Neste triste cenário, a defesa e a segurança revelaram-se ineficientes diante de um problema de base educativa.

Os episódios de vandalismo e pilhagem foram protagonizados por crianças, adolescentes e adultos — todos eles, de forma directa ou indirecta, frutos da educação que o Estado promove (ou não) por via da escola, das famílias, das instituições públicas, dos órgãos de comunicação, televisão, rádios, organizações nãogovernamentais e redes sociais.

A educação tem falhado nos seus objectivos axiológicos, e o comportamento dos cidadãos no diaa-dia — amplamente demonstrado nestes episódios violentos — denuncia essa falha. Urge repensar a educação dos angolanos, mas, acima de tudo, os valores adoptados para a construção da sociedade angolana.

É preciso cantar e tocar o hino das virtudes alto e em bom som, tal como se tocam os sucessos das músicas populares. É preciso cuidar da saúde da consciência dos cidadãos, tal como se cuida da saúde dos governantes.

É preciso uma educação que não signifique apenas a construção de salas de aulas. Só a educação reverterá quadros tristes como estes, que afugentam a necessária aproximação de parceiros internacionais.

Portanto, a civilidade dos cidadãos depende muito do civismo do governo. Na Noruega, não se registam manifestações que desembocam em actos de vandalismo e pilhagem como os que aqui ocorrem.

Eles não são mais humanos — apenas compreenderam que a educação resolve o problema da consciência, da qual depende a convivência pacífica, a estabilidade, a harmonia social e o desenvolvimento humano. Mais educação de qualidade, menos armas!

Por: ESTEVÃO CHILALA CASSOMA

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