OPaís
Ouça Rádio+
Sáb, 25 Abr 2026
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Jornal O País
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Sem Resultados
Ver Todos Resultados
Ouça Rádio+
Jornal O País
Sem Resultados
Ver Todos Resultados

Fome: A cova dos miseráveis

Jornal Opais por Jornal Opais
5 de Setembro, 2023
Em Opinião

Naquele dia, na casa da dona Marta, parecia ser uma daquelas noites em que ninguém esperaria passar na vida.

Poderão também interessar-lhe...

CONTOS D’OUTROS TEMPOS: Seja forte, Miguel! – Vidas de Ninguém (XX)

O princípio de uma só China é consenso geral da comunidade internacional

O poder disciplinar do empregador

Estavam todos sentados, com os rostos voltados para a televisão, refletindo o vazio dos noticiários. Obrigavam-se a assistir apenas para que a noite passasse rápido.

Os corações estavam cheios de ilusões, excepto o estômago, que se revoltava devido à fome.

A mãe, senhora zungueira de peixe, nas ruas da cidade de Lubango, não conseguiu fazer nada neste dia, pois quando foi buscar o produto à peixaria, disseram-lhe que o preço tinha aumentado.

Como o dinheiro que ela levou não chegava para caular, voltou para casa revoltada e triste por não ter sequer uma posta de peixe seco para dar aos seus filhos.

Saiu de lá bastante pensativa e cabisbaixa.

Pelo semblante, era visível o sentimento de desespero e angústia por não ter noção com o quê iria alimentar as cinco crianças, sendo o mais novo com apenas cinco anos de idade.

Os minutos passavam e a fome não dava trégua.

Os filhos mais velhos, ao se aperceberem do estado da mãe, sabiam que a noite seria lenta e terrível, como alguém que estivesse numa UTI.

No entanto, os mais pequenos não se importavam se havia comida em casa ou não.

O de sete e nove anos pareciam atletas num espaço de poucos metros, indo e vindo da cozinha à procura de um sopro ou de algum vestígio de fervura vindo do fogão.

Infelizmente, tudo o que encontravam era o brilhante alumínio que caracterizava os utensílios.

Um deles, inspirado na coragem dos super-heróis, decidiu enfrentar a mãe e perguntar-lhe:

— Afinal, hoje não vamos jantar, ó mãe? – O restante do grupo entre olhou-se atentamente, esperando por uma surpresa, mas ninguém disse nada.

Dona Marta, sentindo dor no coração, pensou no quanto era difícil ser mãe solteira de cinco crianças e decidiu não derramar lágrimas, para não ser considerada fraca.

Então, chamou a filha até ela e aproveitou a ocasião para explicar a todos: — Meninos, infelizmente, hoje não teremos jantar.

Quando fui ao mercado, encontrei tudo muito caro e não consegui comprar o peixe. Por isso, não fui à zunga. – Mal tinha terminado de falar, um deles, incapaz de conter as lágrimas, retorquiu, soluçando bastante: — Mas ó mãe, onde está nosso pai?

Parece que só você luta por nós. Com um olhar úmido, como se estivesse prestes a derramar rios de lágrimas, ela respondeu: — Meus filhos, o pai de vocês abandonou-me quando eu estava grávida do André. O caçula, no caso.

Por isso – acrescentou –: eu luto todos os dias para que vocês tenham o que comer. Mas nos últimos dias as coisas ficaram muito difíceis. Os preços subiram e não consigo economizar mais.

Tenho até medo de não ter dinheiro suficiente para comprar comida futuramente. A menina, que não tinha aberto a boca desde então, sugeriu à mãe para que ela, a filha, fizessem uma papa de fuba de milho que tinha sobrado no almoço.

Não havendo açúcar para adoçála, e a mãe não querendo mexer no dinheiro de caular, Marizinha reforçou dizendo que tinha guardado um pouco de açúcar e que seria suficiente para alimentar apenas os mais pequenos, porque os mais crescidos conseguiriam aguentar a noite com fome até o dia seguinte.

Não resistindo a tudo isso, a senhora começou a lacrimejar, sem soluções ou expressões faciais amarradas, apenas apertava a dor para não ser exposta.

Depois de tanto diálogo, os mais pequenos adormeceram sem provar a papita que a irmã estava a fazer.

Ao terminar de cozinhar, ela pediu que Marizinha servisse os que estavam sombrios, enquanto levava o mais pequeno para dormir.

No quarto, ajoelhou-se diante do corpo do rapaz e recitava suas preces ao Deus em quem acreditava. Sentindo muita paz e confiança para o dia seguinte, ela acabou por adormecer.

Aqueles, que estavam na sala a assistir televisão com uma antena improvisada de garfo, entenderam que também era hora de ir deitar, já que a mãe não dava sinal de vida.

Dentro do quartinho deles, a menina pediu ao irmão que fossem, antes de se deitarem, de joelhos para agradecer pela papita e pedir ao Pai dos Céus que o dia que se avizinhava fosse melhor.

Todos, confiantes e cientes de que o dia de amanhã seria melhor, adormeceram apaziguados do ambiente ora vivido.

Quem sabe tudo se resolva e no dia a seguir a esse comam condignamente. A ver vamos. Entretanto, pensamos que essa é a condição da maioria miserável que, infelizmente, luta por uma única e simples refeição.

Embora parcial, o sofrimento é real; romantizá-lo é o mesmo que dizer que não existe abastados e zungueiras com as mãos calejadas de tanto trabalho duro.

Tentar romantizar a fome do outro é ignorar o facto de que, neste momento, duas ou milhares de famílias não tiveram jantar ontem e hoje não terão matabicho tampouco almoço.

Sem mesmo conseguir nada, não desistem fácil.

Há quem diga que não só comete suicídio porque tem certeza de que a fome fará esse trabalho por ele. No entanto, muitas são as pessoas que só vivem porque a graça, segundo sua fé, é uma realidade.

Até que aqueles que têm o poder decidam pelas nossas vidas, veremos quem sobreviverá neste deserto de famintos por um propósito bem arquitectado maquiavelicamente falando.

Contudo, assim como acreditaram a senhora, sua filha e seus irmãos, não vamos desistir ainda, tempos melhores virão.

 

Por: GABRIEL TOMÁS CHINANGA

Jornal Opais

Jornal Opais

Recomendado Para Si

CONTOS D’OUTROS TEMPOS: Seja forte, Miguel! – Vidas de Ninguém (XX)

por Domingos Bento
24 de Abril, 2026

Enquanto esperava por uma amiga no Nosso Super do Golf II, um puto veio ter comigo. Traumatizado com os constantes...

Ler maisDetails

O princípio de uma só China é consenso geral da comunidade internacional

por Jornal OPaís
24 de Abril, 2026

Recentemente, o Secretário-Geral do Comitê Central do Partido Comunista da China e Presidente da China, Xi Jinping, reuniu-se em Beijing...

Ler maisDetails

O poder disciplinar do empregador

por Jornal OPaís
24 de Abril, 2026

O mercado Angolano, está cada vez mais exigente, a produtividade e a disciplina organizacional são determinantes para a sustentabilidade das...

Ler maisDetails

O chamado do Papa ao coração de Angola

por Jornal OPaís
24 de Abril, 2026

A visita do Santo Padre a Angola ficará gravada não ape nas como um mo mento histórico, mas como um...

Ler maisDetails

Viagem Apostólica do Papa Lão XIV a Angola

Mais de seis mil novos militantes reforçam fileiras da JMPLA

25 de Abril, 2026

Polícia Fiscal Aduaneira “trava” tentativa de saída ilegal de 30 barras de ouro no AIAAN

25 de Abril, 2026

Pumangol distinguida como referência em Responsabilidade Social Corporativa

25 de Abril, 2026

BCI conquista Prémio Forbes Responsabilidade Social 2026 no Sector Financeiro

25 de Abril, 2026
Facebook Twitter Youtube Whatsapp Instagram

Para Sí

  • Radio Maís
  • OPaís
  • Media Nova
  • Negócios Em Exame
  • Chiola
  • Agência Media Nova
  • Contacto

Categorias

  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Publicações
  • Vídeos

Condições

  • Política de Privacidade
  • Política de Cookies
  • Termos & Condições

@ Grupo Media Nova | Socijornal

Sem Resultados
Ver Todos Resultados
  • Política
  • Economia
  • Sociedade
  • Cultura
  • Desporto
  • Mundo
  • Multimédia
    • Publicações
    • Vídeos
Ouça Rádio+

© 2024 O País - Tem tudo. Por Grupo Medianova.

Este site utiliza cookies. Ao continuar a usar este site, você está dando consentimento para a utilização de cookies. Visite nossa Política de Privacidade e Cookies.