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Venda informal de medicamentos tradicionais é um perigo iminente

Jornal Opaispor Jornal Opais
2 de Abril, 2018
Em Sem Categoria

A dosagem desregrada e a conservação de medicamentos tradicionais em locais com muita poeira e sob temperaturas que rondam os 28 graus centígrados põem em risco a saúde de quem os consome, segundo especialistas

Texto de: Joel Coimbra

Viúva e mãe de três filhos, Débora Natércia comercializa medicamentos tradicionais. É daí que sai o seu sustento. Não cobre todas as despesas de casa, mas as essenciais. Ainda assim, diz que o negócio a ajuda imenso.

Dona “Dé” confessou nunca ter passado por uma formação, mas admitiu que se houvesse oportunidade passaria. “Até porque o conhecimento nunca é demais”, acrescentou.

Conheceu as propriedades dos medicamentos que comercializa, desde criança, através da sua avó materna. Sentada no passeio de uma cantina, com o rosto esbranquiçado pela poeira, dona Dé confessa gostar do que faz. No entanto, lamenta que os seus filhos não lhe queira seguir as pegadas.

“Comecei a vender no antigo Roque Santeiro. O pai deles ainda estava em vida, ele não se implicava comigo por vender esses medicamentos. Pelo contrário, apoiava. Uma vez a minha filha foi vender, chamaram-na de “pequena kimbandeira” e para lá ela nunca mais voltou”, conta.

Como toda e qualquer vendedora ambulante, dona Dé mostrou-se indignada com o trabalho dos fiscais. “Nós não temos paz” disse, “esses fiscais não respeitam, mas não respeitam mesmo. Chegam, bicam as nossas coisas e, às vezes, nos dão com o porrete.”

“Bruxas”, dizem os outros

No mundo da medicina tradicional há diversidade de grupos. Existem os curandeiros, bruxos, “kimbandeiros” (adivinhos), médicos tradicionais e as vendedoras ambulantes.

Quem não conhece essa diversidade pode fazer confusão, por isso, às vezes, acaba “ferindo” quem tem como objecto de trabalho a medicina tradicional. Dona Dé conta que teve colegas, que foram confundidas e chamadas de bruxas. “Eu tenho uma amiga que era chamada de bruxa, por vender medicamentos tradicionais. Ela vivia no Calemba 2, tanto que teve de sair de lá porque lhe acusavam de muitas coisas.

Quando alguém sonhasse mal, acusavamna, quando alguém tivesse uma doença que demora muito para curar, também lhe acusavam. Graças a Deus nunca fui chamada de bruxa”, revelou.

“Esses medicamentos são naturais, se ficarem ao sol não fazem mal algum” Num ambiente totalmente ensolarado, num dia em que, segundo o INAMET os barómetros marcavam 28 graus Celsius, os medicamentos eram comercializados sem qualquer tipo de refrigeração. Muita poeira se fazia sentir. Inclusive, passavam pessoas com máscaras para evitarem a inalação do pó.

Não havia uma única sombrinha, apenas a parede a que se encostava dona Dé e uma sua colega da labuta dava uma sombra que amenizava os raios solares.

A vendedora ambulante insistiu que esses medicamentos não têm problemas se ficarem expostos ao sol. “Aqueles medicamentos da farmácia é que não podem ficar no sol, esses medicamentos são naturais, se ficarem no sol não fazem mal algum”, disse.

Ao lado estava a senhora Clementina, que também comercializa medicamentos tradicionais. Mulher de 53 anos de idade, também aprendeu o ofício com a sua avó e “confirma” que a exposição ao sol dos medicamentos não tem mal algum. Os medicamentos, segundo dona Clementina, não têm uma data específica de caducidade.

Dependência de medicamento para relações sexuais

Diogo Manuel (nome fictício) garantiu a OPAÍS que desde muito cedo começou a ter relações sexuais, mas hoje já não tem a potência sexual ideal certa para satisfazer uma mulher, segundo disse. “Tudo começou quando um amigo meu me disse que para voltar no activo e ser um pouco mais ‘feroz’ tinha de comprar o ‘Jola Miongo’(estimulante sexual)”, contou.

Assim, Diogo procurou por uma senhora que lhe vendeu uma pequena porção e acordaram que, caso a potência sexual voltasse, ele regressaria e compraria a grosso. “Provei, gostei e nunca mais parei”, disse. Aos 29 anos estava no auge da sua vida sexual. Agora, com 37 anos de idade, diz que se tornou dependente deste remédio e que quando acorda já não fica excitado. Já procurou por outras ajudas, mas sem sucesso.

Riscos de Cirrose Hepática e Barriga de Água

O coordenador nacional para Área do Ensino da Câmara dos Terapeutas Tradicionais, Gabriel Joaquim Viva, afirmou que a maneira como as vendedoras ambulantes conservam os medicamentos tradicionais é errada.

Os danos causados podem variar de acordo com o problema que se pretende tratar. Segundo ele, a conservação e a dosagem desregrada têm consequências diferentes, a dosagem pode provocar a “Barriga de água” ou a Cirrose Hepática (“problema que ocorre no fígado, quando os medicamentos e a sua propriedade fotoquímica não têm força para o metabolismo do organismo desfazer aquilo que nós tomamos”). Ainda referiu que o fígado é um órgão acessível e é o que filtra os elementos depois distribuídos através do sistema cardiovascular.

Quando isso não acontece, pode ocorrer também a “Barriga de Água”, como a nossa população conhece. Continuando, o terapeuta acrescentou que mater um medicamento exposto ao sol e à poeira não é adequado.

A questão da venda de medicamentos na rua está a ser, nos últimos dias, um problema para o Ministério da Saúde. “Cheguei ontem da província do Namibe, onde encontramos o mesmo problema. É que alguns saem do Congo Democrático e vendem esses produto de forma ambulante”, disse.

O medicamento, para o naturalista, não deve ser adquirido da maneira como se adquire, mas, sim, “deve ser indicado por um profissional que conhece o funcionamento anatómico do indivíduo, que vai avaliar o peso, o que come o que não come, o que já tomou, o que não tomou”.

“O uso com má orientação, o uso através do sobrinho que comprou e teve êxito e de outros que dizem que ‘eu comprei e resultou’ não pode nos influenciar. Portanto, a conservação tem sido um problema muito sério. O que se pretende é uniformizar a medicina convencional e a medicina natural”, explicou.

Câmara dos Naturalistas preocupada com jovens que usam estimulantes sexuais naturais

O coordenador da Câmara, Gabriel Viva, em nome da organização afecta ao Ministério da Saúde, mostrou-se muito preocupado com os jovens que recorrem aos estimulantes sexuais sem uma recomendação médica. Segundo o responsável, os jovens tomam dosagens inapropriadas e por motivos desnecessários.

Percebe-se que os remédios só devem ser consumidos por aqueles que realmente precisam. “Essa é a nossa preocupação, também a de aconselhar a população para que os medicamentos não sejam vendidos na rua, porque o seu estado de conservação não é apropriado”, frisou.

Os medicamentos mais solicitados, para o especialista, são as viacas (parte branca da melancia), “Jola Miongo” e o “Timba Timba”. “Esses produtos parecem bons, mas não sabemos há quanto tempo está preparado, não sabemos quais são os elementos que ele isolou para o produto não ter a data de caducidade.

Não é apropriado e não aconselhamos a população a adquirir esses produtos”, aconselhou. As consequências que podem vir a seguir, segundo o especialista, para além da danificação da próstata e das varicoceles (veias localizadas na região peniana), podem ser o de viciar o próprio organismo, fazer com que o corpo se torne dependente desses estimulantes.

O terapeuta recomenda o cuidado antes da medicação. “Temos de ver como o medicamento funciona. Agora não, os jovens, quando fazem relações sexuais a tendência dele é dizer que ‘hoje ela tem de me sentir, hoje vou lhe aleijar’. A actividade sexual não é agressividade, actividade sexual é amor”, aconselhou.

“Homem tem de sentir que não é para satisfazer a ele, mas sim a sua parceira e a parceira, também do mesmo modo, pensar que não é para satisfazer ela, mas sim o seu parceiro, isso pode ser uma rotina de uma vez por semana, normalmente”, reiterou.

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