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OPAÍS

Indústria de serrações podem encerrar por falta de madeira

Jornal Opaispor Jornal Opais
25 de Março, 2018
Em Economia

A proibição de entrada de madeira em Luanda, aplicada em Fevereiro último, como consequência do fim da safra de 2017/2018 reduziu a quantidade de madeira no mercado. Com isso, as serrações de Luanda e do Bengo podem encerrar ainda este mês, adivinhando-se muitos desempregos

Por:  Brenda Sambo

Fotos de: Pedro Nicodemos

Desde o dia 1 de Fevereiro do ano em curso, o Ministério da Agricultura e Florestas proibiu a entrada e corte da madeira serrada em toros, em todo país, situação que está a levar ao encerramento de várias serrações e criar dificuldades nas carpintarias.

O período de proibição imposta pelo Executivo vai até Maio do ano em curso, mas até lá muitas indústrias de serragem estarão paralisadas por falta da matériaprima, como conta à nossa reportagem o chefe da área de produção da serração Matos & Jean, Benedito Cuvale.

Na fábrica, localizada na província do Bengo, logo à entrada nota-se o silêncio, fruto da fraca produção que a unidade regista nos últimos dias. Em exclusivo ao OPAÍS, Benedito Cuvale avança que as dificuldades em torno da produção existem desde o final do ano transacto, e que, apesar de ter havido alguma melhoria no mês de Janeiro, no entanto, a partir do mês de Fevereiro a situação agravou-se por causa da medida tomada pelo Executivo.

De acordo com o responsável, que já está agastado com a situação, se o governo não tomar medidas para contornar a situação no que concerne a liberalização da madeira a fábrica poderá encerrar dentro de dias.

“Estamos a ser muito prejudicados pelas medidas implementadas pelo Executivo, pois a situação tem outros contornos dia após dia. E a tendência é fechar as portas”, declarou. Segundo Benedito, para o seu funcionamento normal a empresa precisa cerca de 500 metros cúbicos de madeira mensalmente, mas tendo em conta as restrições e a época chuvosa que também tem prejudicado, chegam a receber menos de 500 metros cúbicos de madeira. Lembrou que, em 2015/2016, a empresa empregava cerca de 103 trabalhadores, mas foram obrigados a reduzir tendo em conta a situação económica do país.

Com 27 trabalhadores, para pagar os salários Benedito tem que fazer cálculos uma vez que a fabrica já não dá lucros como anteriormente. “Já não há lucros, pois o pouco que entra serve apenas para abastecer as fontes geradoras de energia, alimentação e os salários que muitas vezes são pagos com muitas dificuldades”, lamentou.

Tal como os seus colegas, Benedito referiu que existem fábricas que correm o risco de encerrar, e outras cujas portas já foram mesmo encerradas por falta de matéria-prima (madeira). Neste momento, referiu que sobrevive apenas através de alguns clientes fiéis que muitas vezes ainda procuram os seus serviços. “A idoneidade dá-nos vantagem para com os fornecedores e também alguns clientes que ainda são fieis e procuram sempre pela empresa”, enfatizou.

Questionado sobre o preço actual da madeira, o empresário disse que, actualmente não existe um preço fixo para a compra do produto, mas, explica que as mais caras são aquelas utilizadas para a carpintaria, tais como a moreira e a tacula. Referiu que um metro cúbico da madeira moreira por exemplo, pode custar de Kz 50. 000(cinquenta mil Kwanzas), quando anteriormente era comercializada no valor de Kz 40.000.

Por outra, as madeiras mais baratas são as usadas para a construção, em que um metro cúbico custa Kz 35.000 (trinta e cinco mil kwanzas). Salientou que actualmente a madeira em toro é proveniente das províncias do Uíge e do Bengo.

Para ele, as medidas tomadas pelo Executivo para o escoamento da madeira em toros, de uma determinada província para outra, tem afectado a própria aquisição da matéria-prima, pois a província do Uíge é a principal fonte de entrada de matéria-prima e Preços de artigos nas carpintarias Cama Beliche- Kz 80. 000 Antes Kz 50.000 Cama Casal- Kz 100.000 antes Kz 75.000 Porta de madeira- Kz 65.000 antes Kz 45.000

Actualmente avançou o responsável, a fábrica conta apenas com uma máquina de serragem com capacidade de produzir cerca de 50 a 60 metros cúbicos de madeira por dia.

Fiscalização excessiva

Outra dificuldade que ainda enfrentam tem a ver com a fiscalização. Segundo contou Benedito, os transportadoresd de produtos serrados na fábrica, ao atravessarem a ponte de Kifangondo, sobre o Rio Zenza, são muitas vezes interpelados pelos agentes da polícia na via pública, o que tem afugentado muitos clientes vindo de Luanda.

De acordo com o responsável, houve um erro por parte dos órgãos de comunicação social na altura quando publicaram “a proibição de madeira serrada”, sem especificarem ao menos que tipo de madeira. “Devido esse erro da publicação da notícia muitos clientes têm medo de vir aqui comprar a madeira serrada”, avançou. Benedito disse ainda que, para conseguirem sair com a mercadoria muitos clientes são obrigados a pagar multas aos fiscais para transitarem com as mercadorias adquiridas nas serralharias.

“ A madeira cerrada nas indústrias legalizadas devem passar e transitar normalmente, pois quando esses transtornos acontecem implica que não há livre circulação para o nosso negócio”, disse, acrescentando que “deste jeito estão a afundar a serralheiras”, desabafou.

Na mesma situação está o empresário e proprietário da empresa Cascais, localizada no município de Viana. Carlos Carvalho avançou que vai encerrar a sua empresa nos próximos dias , pois não sabe como fazer para continuar a sua actividade. “Não há madeira, temos muitas dificuldades para aquisição do produto”, reclama, acrescentando que, “antes do final do mês de Março a indústria vai encerrar”, declarou. Sublinha que “sem madeira não existe serração”, lembrou.

Para o responsável, com a proibição da circulação da madeira em toros não há condições das indústrias de serragem continuarem a funcionar. “Em Luanda as serrações estarão difíceis ou então todas têm que mudar para as provinciais, com todos os custos inerentes”, disse.

Preços dos móveis sobem e as carpintarias perdem clientes

A nossa reportagem prosseguiu em algumas carpintarias para saber como muitas têm sobrevivido. Dada a dificuldade na aquisição da madeira e também do preço elevado que os carpinteiros pagam, muitas carpintarias foram obrigadas a subir os preços dos móveis, o que muitas das vezes tem afugentado os clientes, como conta o gerente da carpintaria.

“Junta Mão” do bairro Calemba-II, no município de Viana. Para Simão dos Santos Carlos, a medida do “confisco” da madeira por parte do Executivo tem criado muitos constrangimentos para a actividade diária dos carpinteiros. Segundo o gerente, por causa da subida houve a necessidade de se ajustar também os preços e, consequentemente a carpintaria também teve que ajustar os preços.

Avançou, por outro lado, que uma folha de madeira de quatro metros cúbicos, por exemplo, compram no valor de Kz 14.000 (catorze mil kwanzas), enquanto nos meses anteriores era comercializada a Kz 4.000 (quatro mil kwanzas). O responsável assegura que adquire a madeira através de alguns fornecedores que de algum tempo para cá também estão com dificuldades em fornecer o produto. E nao é tudo, contou à nossa reportagem que o princípio do mês é sempre muito difícil, por isso normalmente chegam a atender por dia dois a três clientes e produzir cerca de três artigos. Por sua vez, Figo Mateus, igualmente carpinteiro, revelou que as dificuldades para aquisição da madeira aumentaram nos últimos meses.

Dada a situação, o responsável conta que há encomendas que estão paradas por falta de matériaprima. Actualmente, explica, “a madeira é comprada no mercado do Kikolo, mas a preços muito elevados, facto que tem suscitado muitas reclamações por parte dos clientes”, disse.

Mercado informa também ressente as dificuldades A proibição de entrada de madeira em touro na capital do país está também a afectar o mercado iformal. Maria Antónia, vendedora do mercado do Kikolo localizado no município do Cacuaco, também reclama que nos últimos dias têm sentido dificuldades para adquirir o produto e quando adquire normalmente é por um valor muito alto.

Para além do preço, Maria salienta também a dificuldade ter carros que transportam as mercadoras da praça. Segundo conta, actualmente paga por uma tábua de quatro metros cúbicos o valor de Kz 8.500 e revende por Kz 9.500. Comerciante de madeira há cinco anos, Maria conta que este é o ano mais difícil para ela, pois tem sido uma luta para conseguir vender.

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