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Carlos Baptista: “Eu não sou o melhor e maior artista, porque o destino nunca me foi favorável”

Augusto NunesPor Augusto Nunes
6 de Março, 2026
Em Cultura, Em Cartaz
0
Tempo de Leitura: 4 mins de leitura
Carlos Baptista: “Eu não sou o melhor e maior artista, porque o destino nunca me foi favorável”

Carlos Baptista é o músico de quem falamos, o autor de memoráveis subtilezas como “Enquanto Espero”, “Amor a Dois”, “Kalakaleno”, entres outras, que se destacaram ao longo dos anos 1980 e 1990. Nesta entrevista ao Jornal OPAÍS, o artista discute o seu afastamento dos palcos devido à falta de convites e apresenta o seu novo álbum, “O Casarão” que, por sinal, uma ficção onírica sobre um homem do campo, contemplando os estilos Bolero, Rumba Angolana e o Semba. O artista revisita a sua carreira, desde o início tardio e a explosão de sucesso na década de 1980, até às dificuldades impostas pelo encerramento dos centros recreativos e a sua visão sobre a nova geração da música angolana

Carlos Baptista é um músico que está sempre presente no meio artístico, mas ausente dos palcos. A que se deve esta situação?

Bem, a minha falta em palcos depende dos convites. Não tenho recebido convites, já lá faz mais de dois anos. A última vez que fui convidado foi a 31 de Maio, para o Show do Mês, do ano passado, do músico Voto Gonçalves, que convidou quatro músicos e eu era um deles. De resto, há mais de dois anos que não recebo um convite. Por isso é que não tenho aparecido.

E, desta forma, como tem gerido a sua carreira actualmente?

Da forma que a situação está, eu estou com um disco gravado, falta ser lançado. Estou à procura de um parceiro ou de mais um patrocinador para lançar o disco. Mas, enquanto isso, já fiz sair do disco duas músicas novas que já estão a rodar. Uma que saiu em Janeiro deste ano. É uma canção antiga, com nova roupagem. Portanto, do disco, já estão três músicas a rodar. Isto para criar clima. Agora, quanto ao resto, já lhe disse: eu não apareço porque não tenho sido convidado. Somente isso.

Quais são as músicas promocionais que estão neste momento a rodar pelas rádios?

Tenho dois boleros, um em Kimbundo e o outro em Português. A terceira canção é um estilo de rumba angolana. As músicas foram muito bem recebidas pelos colegas e todo mundo deu conta que eu estou aí, continuo no activo. O título deste álbum é “O Casarão”, uma ficção que se baseia num homem do campo, que tem uma propriedade agrícola e gado. “O Casarão” é um sonho, eu produzi a canção.

Não é realidade. Eu fui fazendo em 2023, comecei em Dezembro e terminei em Abril ou Maio de 2024. Estou eu mesmo na direcção executiva e só falta fazer a capa e os fonogramas, o que vai depender do parceiro ou do patrocinador. Quer dizer, o mais importante já está feito.

O disco está pronto, está gravado, misturado e masterizado. O resto vai depender. Se for um parceiro, vai depender da ideia do mesmo. Se for um patrocinador, vou depender da ideia e do dinheiro que ele puser. Então, estou neste momento a depender. Não lhe posso avançar outros dados.

Conta-nos, como surgiu o famoso tema “Enquanto Espero”?

O “Enquanto Espero” foi uma canção que uma prima minha que, na altura, com apenas 16 anos, pediume para lhe fazer uma canção. Infelizmente, ela já partiu para outra dimensão. Como só tinha 16 anos, era difícil imaginá-la porque nós, para fazermos qualquer composição, temos que sentir alguma coisa. Temos que gostar, temos que amar, temos que odiar, temos que ter algum sentimento dentro de nós, que depois nos obriga a usar a imaginação e fazer a criação.

Então, nesse exercício, estava com dificuldade de fazer, por causa mesmo da idade dela. Eu disse: meu Deus, isto é…! Então aquilo demorou algum tempo, até que, num dia, num Domingo de Agosto de 1984, eu arrisco em dizer, foi no dia 4 de Agosto. Não sei, só indo agora ao calendário, mas sei que foi num Domingo em que eu tinha feito a canção, “Amar Faz Crescer”. Terminei uma “Rosa Flor”, uma canção que há 3 anos não conseguia terminar.

Quer dizer, que eu estava num super clima de inspiração. Foi quando ela apareceu. Eu estava na varanda com a guitarra, e ela apareceu e disse: “Carlos, a minha canção”. Oh! Olhei para ela e disse: “vai, quando voltares, a canção vai sair”. Doze, quinze minutos depois, a canção saiu. É verdade. Doze, quinze minutos. Não foi preciso alterar quase nada. Dizer que aquilo me deu a impressão de que a canção já estava.

Vinha sendo feita inconscientemente, porque, quando ela chegou, eu disse: “olha, querida, senta-te aqui”. Mostrei-lhe a canção (riso) e ela gostou, disse: “está aí uma canção bem bonita”. Então, olha, fiz isso. Esta é uma canção em tua honra. O que ela tinha, de facto, era vantagem de ser uma rapariga muito sensível, muito carinhosa, muito feminina. Essa é a história do “Enquanto Espero”.

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