Ao longo da modernidade europeia e norte-americana, de terminadas correntes filosóficas, antropológicas e científico-sociais produziram representações hierarquizadas dos povos e das culturas. Em autores como Immanuel Kant e Georg Wilhelm Friedrich Hegel encontram-se formulações que situaram os povos africanos em posições inferiores no desenvolvimento da racionalidade, da cultura ou da história universal.
Posteriormente, autores evo lucionistas como Lewis Henry Morgan e Edward Burnett Tylor classificaram as sociedades segundo estágios hierarquizados de desenvolvimento cultural, enquanto Lucien Lévy-Bruhl distinguiu entre pensamento “prélógico” e pensamento lógico. Historicamente situadas e distintas entre si, essas concepções parecem ter contribuído para uma determinada ordem epistemológica na qual a experiência ocidental passou a ocupar uma posição privilegiada na definição da racionalidade, da ciência e da validade do conhecimento.
Daí emerge a minha inquietação: não haverá, nesse modo de proceder, uma espécie de comportamento aristocrático no campo epistemo lógico global? A questão não é saber simples mente se o Ocidente produziu conhecimento — produziu, e de for ma extraordinariamente significativa —, mas perguntar se a consolidação histórica de deter minadas tradições e instituições pode justificar a pretensão de que apenas elas possuam maior capa cidade racional para produzir, legitimar e definir o conhecimento válido.
Será que a excelência epistemológica de determinados sistemas pode transformar-se em superioridade epistemológica dos seus sujeitos e das suas culturas? Em que medida? Na Política, a aristocracia aparece como governo dos melhores, mas a sua legitimidade não de corre apenas da excelência daqueles que governam; depende da orientação dessa excelência para o bem comum. A oligarquia, por sua vez, representa a degeneração dessa forma de governo quando poucos passam a exercer o poder em função dos seus próprios interesses.
Por: CARLOS PIMENTEL LOPES





