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A caneta não escreve sozinha…

Jornal OPaís por Jornal OPaís
12 de Agosto, 2026
Em Opinião

Há datas que chegam sem fazer barulho, mas carregam consigo uma vida inteira. Esta Quarta-feira, celebro mais um aniversário, mas celebro também uma caminhada. Há um ano, o jornal O País abriu-me as portas para uma das experiências mais bonitas da minha vida. A possibilidade de escrever, regularmente, aquilo que penso, observo e sinto sobre o país e sobre a vida. Coincidentemente, ou talvez não, o aniversário da minha existência encontrou-se com o aniversário da minha escrita naquele espaço.

E, olhando para trás, percebo que há encontros que Deus desenha muito antes de nós compreendermos o seu propósito. Durante duas décadas, tive no Jornal de Angola uma verdadeira escola de vida e de profissão. Foi ali que aprendi que escrever não é simplesmente juntar palavras bonitas numa folha.

Aprendi que cada palavra tem peso, cada título tem responsabilidade e cada informação pode transformar a percepção de quem lê. Aprendi a investigar, a confirmar, a voltar à fonte e, muitas vezes, a começar tudo de novo. Aprendi também que o jornalismo exige disciplina, humildade, coragem e uma enorme capacidade de ouvir. Foram anos de aprendizagem permanente, de salas de redacção, prazos apertados e histórias que me ensinaram a olhar para Angola com outros olhos.

Se hoje escrevo como escrevo, muito do que sou devo àquela escola chamada Jornal de Angola. Escrever no jornal O País, por sua vez, tornou-se um privilégio que recebo com profunda gratidão. Um ano depois, ainda sinto a mesma responsabilidade quando me sento diante de uma página em branco.

Antes de cada artigo, há perguntas, pesquisas, leituras, dúvidas e uma procura quase obstinada pelo ângulo certo. Há temas que parecem simples até começarmos a investigá-los e percebermos quantas histórias escondem. Há noites em que o sono perde a batalha para uma ideia que insiste em ser escrita. Há rabiscos que nascem, parecem perfeitos durante alguns minutos e acabam no lixo porque não dizem exactamente aquilo que queremos dizer.

E há aquele instante raro em que finalmente sentimos. Agora, sim, este texto tem a minha voz. O género de opinião ensinou-me uma liberdade que não trocaria por nada. A liberdade de olhar para a realidade e perguntar aquilo que talvez muitos prefiram não perguntar. A liberdade de falar sobre política, sociedade, educação, comunicação, cidadania, família, comportamento e tantas outras dimensões da nossa vida. Mas essa liberdade vem acompanhada de uma responsabilidade ainda maior: a de não ferir gratuitamente a sensibilidade de ninguém. Procuro discordar sem desrespeitar, questionar sem humilhar e criticar sem transformar a opinião nu- ma arma.

Nem sempre é fácil encontrar esse equilíbrio, sobretudo quando escrevemos sobre assuntos que despertam paixões. Mas é precisamente nessa fronteira que encontro a essência daquilo que quero ser enquanto autora. Gosto de escrever de forma bem peculiar, agarrada à minha essência. Não quero que os meus textos pareçam escritos por outra pessoa, nem desejo caber numa fórmula que não me pertence. Tenho a minha maneira de construir frases, de provocar reflexão, de usar a ironia e, sobretudo, de contar aquilo que penso. Às vezes sou mais dura, outras vezes mais sentimental, mas procuro nunca deixar de ser verdadeira.

Acredito que um artigo de opinião deve carregar a impressão digital de quem o escreve. Podemos aprender técnicas, estudar estilos e aperfeiçoar a linguagem, mas a identidade de um autor não se fabrica. Ela nasce das experiências, das convicções, das inquietações e da forma particular como cada um enxerga o mundo. Sei perfeitamente que os meus textos não agradam a todos, e não escrevo à procura dessa unanimidade. Aliás, talvez seja impossível escrever com verdade e, ao mesmo tempo, agradar a toda a gente. Alguns lêem para concordar, outros lêem para discordar e há quem leia apenas para procurar uma razão para desvalorizar o trabalho.

Já ouvi, ou soube, de murmúrios segundo os quais não sou eu quem escreve aquilo que assino. Dizem, entre cochichos, que é a inteligência artificial que faz tudo por mim e que eu não teria capacidade para escrever os meus próprios textos. Não me ofende tanto a afirmação quanto me faz reflectir sobre a dificuldade que algumas pessoas têm em reconhecer o mérito dos outros. Mas aprendi há muito tempo que não precisamos responder a todos os rumores quando a nos- sa caminhada responde por nós. A quem acredita que uma máquina pode apagar duas décadas de aprendizagem, deixo apenas a serenidade de quem conhece a própria história.

Antes de existirem as ferramentas que hoje facilitam a escrita, já havia uma jovem a aprender a trabalhar com palavras. Antes de qualquer IA, já existiam pautas, entrevistas, livros, jornais, fontes, gravações, madrugadas e páginas escritas à mão. Antes de qualquer algoritmo, já existiam erros corrigidos, textos refeitos e experiências acumuladas numa profissão que me ensinou a pensar. Ferramentas podem ajudar, como ajudam tantos profissionais em diferentes áreas, mas nenhuma ferramenta pode substituir aquilo que carregamos dentro de nós. E, no meu caso, não preciso convencer quem decidiu não acreditar em mim. Deus sabe quem somos quando ninguém está a olhar e conhece a verdade que existe por detrás de cada conquista.

Ele sabe das noites mal dormidas, dos textos abandonados, das ideias perseguidas até ao último parágrafo e das vezes em que pensei que não conseguiria. Por isso, não carrego ressentimento contra quem tenta diminuir o meu trabalho. A minha resposta continuará a ser trabalhar, aprender, escrever e melhorar. No fim de tudo, Deus sabe todas as coisas e isso basta-me. Este primeiro ano no jornal O País foi também um exercício de responsabilidade perante os leitores. Cada artigo publicado trouxe consigo a consciência de que, do outro lado, existe alguém que lê, pensa, concorda, discorda ou simplesmente descobre uma nova perspectiva.

É isso que mais me fascina na opinião. A possibilidade de lançar uma pergunta e deixar que cada leitor encontre a sua própria resposta. Não escrevo para pensar pelos outros, mas para ajudar cada um a pensar melhor. Não quero entregar verdades prontas, mas provocar reflexão e incentivar o diálogo. Porque uma sociedade informada precisa de cidadãos capazes de formar as suas próprias ideias. E, nesse sentido, escrever também é uma forma de servir.

Há uma felicidade silenciosa em perceber que uma ideia que nasceu numa folha rabiscada chegou à mesa, ao telemóvel ou às mãos de alguém que talvez nunca conheçamos. Talvez aquele leitor tenha mudado de opinião depois de um artigo. Outro tenha discordado profundamente e tenha começado uma conversa importante por causa dele. Alguém tenha encontrado nas minhas palavras a coragem para questionar aquilo que antes aceitava em silêncio. É nessa possibilidade que encontro o verdadeiro sentido desta caminhada. Porque, para mim, escrever nunca foi apenas aparecer numa página de jornal.

É deixar uma pequena contribuição no grande exercício comum de compreender o país e compreender-nos enquanto sociedade. Ao jornal O País, o meu profundo obrigada por este espaço e pela confiança. Obrigada por permitir que a minha voz encontre leitores e que as minhas inquietações possam transformar-se em reflexão pública. Obrigada por fazer da imprensa também um lugar de informação, formação e construção de pensamento.

Aos leitores, obrigada por cada leitura, cada crítica, cada concordância e até por cada discordância. Aos que gostam dos meus textos, espero continuar a merecer a vossa companhia. Aos que não gostam, continuem a ler, talvez um dia encontremos, pelo menos, uma pergunta em comum. E a quem ainda duvida de quem segura a caneta, não tenho muito a dizer. Continuarei a escrever, porque há respostas que não se explicam, escrevem-se. Afinal, a caneta não escreve sozinha. Atrás dela existe uma história, uma consciência, uma mulher e uma vida inteira de aprendizagem.

POR: YARA SIMÃO

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